Ser quem sou: eis a questão.

Dei por mim aos prantos diante das imagens da Paulista e de Copacabana, com aquela alegria meio desprotegida que às vezes me acontece quando a vida, depois de tanto me parecer incompreensível, oferece um lugar onde consigo reconhecer o que sinto, e fiquei olhando as pessoas como quem procura, numa sala cheia, alguém perto de quem possa finalmente se sentar.

Entre tantos rostos, estavam os meus ídolos, gente que me emprestou palavras quando eu ainda não sabia dizer o que doía, que cantou dentro dos meus amores e permaneceu comigo depois que eles terminaram, artistas cujas vozes conheço com a intimidade das coisas de casa, agora envelhecidos, livres da obrigação de votar e ainda assim dispostos a escolher o país que ficará para os outros.

Penso nessa disposição com uma ternura que me aperta, porque existe alguma coisa profundamente bonita em chegar à idade do descanso e continuar preocupado com quem precisa começar, em ter atravessado tantas despedidas e ainda encontrar razões para sair, oferecer o corpo à rua, comprometer o próprio nome com um amanhã do qual talvez se conheça apenas o começo.

É diante deles que a diferença entre os dois lados se torna, para mim, mais nítida, porque de um lado encontro uma ideia de liberdade na qual preciso caber com meus afetos, minhas contradições e o direito de discordar, enquanto do outro me pedem que aceite como liberdade a licença de humilhar quem vive de maneira diferente, como se a dignidade fosse propriedade de alguns e os demais devessem agradecer pela tolerância.

Não consigo separar essa escolha da minha vida, do homem que sou, dos filhos que criei, das pessoas que abracei quando não havia nada a oferecer além da presença, e talvez por isso me doa tanto ouvir a crueldade pronunciada com orgulho, perceber o prazer de diminuir alguém e depois assistir à tentativa de transformar esse prazer numa virtude pública, numa prova de coragem, numa maneira supostamente franca de dizer as coisas.

Conheço as falhas do lado em que estou, tenho perguntas que não desapareceram, discordâncias que levo comigo, mas nenhuma decepção me ensinou a achar aceitável o desprezo, e sigo acreditando que um governo precisa responder pelo sofrimento que pode evitar, que a pobreza exige providências, que uma família merece existir sem prestar contas à religião dos outros e que perder uma eleição faz parte de aceitar viver entre iguais.

Quando olho para aquele homem de cabelos brancos, reconheço também o peso do tempo, penso no que significa continuar se expondo depois de uma vida inteira de embates e descubro que minha escolha passa por algo muito próximo, quase doméstico: quero poder ouvir quem governa sem precisar explicar aos meus filhos por que a dor de alguém virou motivo de riso.

Do outro lado também existem pessoas que amo, e esse talvez seja o trecho mais difícil desta história, porque conheço a delicadeza de algumas delas na intimidade e não compreendo como conseguem acomodar tanta dureza na escolha pública, como a mão que ampara alguém tão perto pode aceitar que se retire o amparo de quem está longe, fora da família, fora da fotografia.

Não quero perder essas pessoas, mas também não posso lhes entregar, em nome da nossa convivência, aquilo que permite a tantos outros respirar, amar e chegar vivos em casa, pois o afeto que sinto por alguém não torna inofensivo o projeto que essa pessoa ajuda a eleger.

Foi nisso que pensei vendo a Paulista e Copacabana, enquanto os rostos dos meus ídolos me devolviam uma espécie de confiança que eu já estava constrangido de sentir, e compreendi que, para mim, estar do lado certo significa conseguir sustentar a própria escolha diante de alguém que depende dela para ter direitos, mesmo que esse alguém nunca venha a saber quem eu sou.

Fabrício Correia é escritor, jornalista. Membro da Associação Nacional de Editores de Revistas e da União Brasileira de Escritores.

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