A humanidade alcançou um estágio particularmente sofisticado de estupidez quando seus maiores responsáveis pela devastação do planeta passaram a organizar festas milionárias para discutir a preservação ambiental, cercados de celebridades e investidores, enquanto a perspectiva do fim do mundo se converte em oportunidade de negócios. Romain Gavras encontra nessa contradição a matéria-prima de “Sacrifício”, comédia apocalíptica de humor perverso e extraordinária exuberância visual, cuja inteligência provocadora nem sempre acompanha a extravagância de suas imagens.
Filho de Costa-Gavras, referência incontornável do cinema político europeu, Romain herdou o interesse pelas estruturas de poder, mas desenvolveu uma linguagem próxima da irreverência de Luis Buñuel e da crueldade social de Ruben Östlund. Seu filme acompanha uma celebração ambiental organizada pelo bilionário Ben Bracken, interpretado por Vincent Cassel com a presunção daqueles que confundem fortuna pessoal com superioridade intelectual. Entre os convidados está Mike Tyler, astro hollywoodiano em decadência que Chris Evans interpreta com admirável disposição para ridicularizar sua imagem de herói cinematográfico.
A chegada de Joan, personagem de Anya Taylor-Joy, transforma a festividade numa experiência de terror religioso. Convencida de que sacrifícios humanos poderão impedir uma catástrofe planetária, a líder de uma comunidade radical representa a sobrevivência de crenças primitivas numa sociedade aparentemente governada pela ciência. Taylor-Joy domina suas aparições com intensidade desconcertante, encontrando na serenidade da personagem uma expressão assustadora do fanatismo, cuja violência nasce da incapacidade de reconhecer qualquer legitimidade na dúvida.
Charli XCX participa dessa extravagância como Mother Nature, numa aparição que reforça o caráter artificial de um universo no qual até a natureza precisa de representação pop para conquistar atenção. Salma Hayek e John Malkovich completam um elenco que parece divertir-se diante da possibilidade de representar figuras grotescas sem a obrigação de torná-las simpáticas.
Gavras demonstra absoluto domínio da composição visual, especialmente nas sequências coletivas, quando corpos, música e paisagens assumem organização quase operística. Seu talento permanece indiscutível, embora o roteiro escrito com Will Arbery frequentemente confunda provocação intelectual com acumulação de absurdos. A crítica à arrogância dos bilionários encontra sua melhor expressão na naturalidade com que tratam o destino coletivo como extensão de seus interesses particulares, enquanto a representação do radicalismo ambiental revela dificuldade em distinguir convicção política, desespero legítimo e delírio messiânico.
Mesmo irregular, “Sacrifício” conserva a insolência dos filmes dispostos a incomodar. Seu apocalipse encontra uma sociedade tão fascinada pelo dinheiro e pela própria importância que sequer consegue reconhecer a dimensão da tragédia. A maior ironia de Gavras reside nessa humanidade que procura salvadores enquanto seus privilegiados disputam os melhores lugares para assistir ao incêndio. Seduzido pela beleza das próprias labaredas, o diretor por vezes esquece de aprofundar aquilo que pretende denunciar.
Avaliação: ★★½☆☆ — 2,5 de 5 estrelas
Fabrício Correia é crítico de cinema, membro da Academia Brasileira de Cinema.



