A morte de uma pessoa querida costuma deixar uma herança desconcertante: a obrigação de continuar vivendo num mundo que já não corresponde àquele que conhecíamos. Em “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”, Diego Freitas parte dessa experiência para examinar uma amizade interrompida precocemente e a dificuldade de uma jovem em descobrir quem é quando perde a pessoa que melhor a conhecia.
Adaptado do romance de Fernanda de Castro Lima, o filme acompanha Gabi (Any Gabrielly), uma adolescente reservada, habituada a encontrar na melhor amiga, Júlia (Giulia Be), a coragem que lhe falta. Extrovertida e impulsiva, Júlia ocupa um espaço decisivo em sua vida. Um acidente de carro interrompe a convivência, deixando Gabi mergulhada numa tristeza que compromete suas relações e expectativas. A descoberta de dez cartas escritas pela amiga antes de morrer modifica essa rotina. Cada mensagem contém um desafio, uma experiência que Gabi deverá realizar para enfrentar seus receios e conhecer possibilidades que jamais considerou.
O argumento encontra sua força numa circunstância delicada: Júlia continua exercendo influência sobre Gabi mesmo depois de morta. As cartas prolongam uma intimidade que a tragédia deveria ter encerrado, mas também revelam quanto aquela amizade dependia da iniciativa de uma e da submissão afetiva da outra. A personagem precisa aprender a viver sem Júlia, embora todos os seus movimentos ainda obedeçam às instruções deixadas por ela. Essa contradição, talvez a mais interessante do roteiro, merecia um tratamento menos conciliador.
Freitas conhece os mecanismos do melodrama e sabe conduzir uma história destinada ao público jovem. O problema surge quando a experiência do luto adquire a organização de um programa de superação pessoal. Os desafios se sucedem com uma regularidade que simplifica as oscilações emocionais de Gabi. A dor encontra respostas demasiadamente oportunas, enquanto os conflitos parecem existir para confirmar uma lição previamente estabelecida. A adolescência, tão fértil em impulsos contraditórios, acaba domesticada pelas conveniências da narrativa.
Any Gabrielly oferece à protagonista uma vulnerabilidade convincente, especialmente quando o silêncio expressa melhor seu desconforto do que as palavras. Giulia Be imprime à amiga morta uma vitalidade que ajuda a compreender a dimensão da perda. O contraste entre ambas sustenta os momentos mais sinceros do filme. Pâmela Germano, na pele de Lorena, contribui com uma naturalidade bem-vinda. Já a relação entre os personagens de Leo Jaime e Arthur Kohl introduz outra percepção da intimidade, sugerindo que o aprendizado amoroso não pertence exclusivamente à juventude.
O diretor, entretanto, insiste em sublinhar sentimentos que poderiam alcançar maior intensidade sem tantos recursos explicativos. A encenação frequentemente antecipa a reação esperada do espectador, diminuindo a liberdade de interpretação. Quando abandona essa preocupação, encontra uma delicadeza que o aproxima de seus personagens.
“As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” emociona mais pela identificação com a perda do que pela originalidade de sua construção. Seu maior interesse reside numa pergunta que atravessa discretamente a trajetória de Gabi: até que ponto a fidelidade aos mortos pode impedir a vida dos que ficaram? A resposta mais adulta talvez não estivesse em cumprir as dez tarefas de Júlia, mas em descobrir que amar alguém também significa, um dia, deixar de seguir suas instruções.
★★★☆☆ (3 de 5 estrelas)
Por Fabrício Correia



