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Crítica: Memórias do Vinho, personagens menores que seus conflitos

★★☆☆☆

Por Fabrício Correia

A deterioração das relações familiares oferece ao teatro uma matéria inesgotável, sobretudo quando o ressentimento adquire a intimidade de um hábito e a convivência entre pais e filhos se converte numa contabilidade de frustrações. “Memórias do Vinho — Per Bacco”, de Jandira Martini e Maurício Guilherme, parte de uma situação dramatúrgica promissora, mas encontra dificuldades para conferir densidade psicológica aos personagens, frequentemente submetidos a comportamentos exagerados que comprometem a gravidade dos conflitos. Sob a direção de Elias Andreato, Herson Capri e Caio Blat protagonizam um encontro que poderia alcançar dimensões devastadoras, não fosse a insistência em reações ostensivas, responsáveis por reduzir experiências humanas complexas a manifestações previsíveis de temperamento.

Daniel, engenheiro aposentado de 80 anos, vive numa instituição para idosos enquanto sua antiga mansão, hipotecada, conserva uma coleção de vinhos valiosos. Seu filho, Júnior, estabelecido na Austrália, retorna interessado em converter aquele patrimônio em dinheiro para financiar seus projetos cinematográficos. O reencontro acontece na adega, espaço de preservação material e abandono afetivo, onde o pai parece ter dedicado às garrafas uma atenção que jamais conseguiu dispensar às pessoas. A situação contém uma ironia amarga, embora o espetáculo raramente consiga desenvolvê-la além de sua formulação mais evidente.

Capri dispõe de uma presença cênica capaz de sugerir, com extraordinária economia, a decadência de um homem habituado ao exercício da autoridade. Entretanto, Daniel surge excessivamente identificado com a figura do velho obstinado, autoritário e sentimental, cuja fragilidade é anunciada antes que suas contradições possam adquirir consistência. Caio Blat enfrenta uma dificuldade ainda maior na composição de Júnior, personagem cuja infantilidade ultrapassa os limites de uma imaturidade emocional plausível e assume, em determinadas passagens, um comportamento deliberadamente pueril. Seus acessos de indignação, suas reações intempestivas e a maneira como reivindica reparações afetivas aproximam-no de um adolescente contrariado, embora estejamos diante de um adulto com trajetória profissional e experiências suficientes para sustentar conflitos de outra natureza. A interpretação compromete especialmente a relação entre os dois, pois a agressividade do filho raramente alcança a violência psicológica que uma história de abandono poderia produzir.

O diário do enólogo, encontrado pelo filho, constitui um dos instrumentos dramatúrgicos mais interessantes da montagem, pela possibilidade de introduzir outra consciência na narrativa e confrontar as versões que pai e ele próprio construíram sobre o passado. Seu potencial, contudo, acaba limitado pela utilização excessivamente explicativa das revelações, como se a memória precisasse fornecer respostas precisas para ressentimentos que deveriam conservar alguma ambiguidade. O diário poderia perturbar a identidade dos personagens, comprometer suas certezas e deslocar a responsabilidade moral dos acontecimentos, mas funciona predominantemente como mecanismo de esclarecimento sentimental.

Também causa estranhamento o subtítulo “Per Bacco”, expressão italiana associada a Baco, divindade do vinho, do êxtase e dos excessos. Pouco dessa dimensão dionisíaca se manifesta na encenação. O vinho comparece como patrimônio, objeto de disputa e metáfora relativamente óbvia da passagem do tempo, sem adquirir a sensualidade, a embriaguez ou a potência transgressora que sua presença poderia conferir à dramaturgia. A adega, concebida cenograficamente por Rebeca Oliveira, oferece uma atmosfera sugestiva, mas o espetáculo parece mais interessado no valor das garrafas do que no universo cultural e simbólico que elas representam. Falta-lhe, precisamente, alguma coisa de Baco.

Elias Andreato conduz os intérpretes com fluência, embora sua direção pareça excessivamente conciliadora diante das fragilidades do texto. A ausência de Laurita, esposa e mãe, poderia ampliar a inquietação sobre aquela história familiar, introduzindo uma perspectiva capaz de contrariar a memória masculina que domina o encontro. Entretanto, a narrativa prefere organizar seus conflitos segundo uma lógica emocional reconhecível, na qual os personagens acabam explicados antes de se tornarem verdadeiramente interessantes.

Último trabalho dramatúrgico de Jandira Martini, autora de inteligência cênica demonstrada ao longo de uma trajetória respeitável, “Memórias do Vinho” merece consideração pela importância de seu legado, sem que essa circunstância deva condicionar o julgamento artístico. A peça reúne dois intérpretes de grande experiência diante de personagens que poderiam expressar a crueldade involuntária dos vínculos familiares, a vergonha do envelhecimento e a persistência infantil de certas feridas. Entretanto, a banalização das atitudes e o excesso de evidência sentimental impedem que esses elementos alcancem a profundidade sugerida pela premissa. Daniel e Júnior possuem razões suficientes para serem personagens perturbadores, mas terminam excessivamente domesticados pelas convenções do melodrama. Num espetáculo dedicado à memória, talvez a maior frustração esteja justamente na pouca complexidade daquilo que se oferece para recordar.

Fabrício Correia é escritor, crítico de cinema e professor universitário. Integra a União Brasileira de Escritores e a Academia Brasileira de Cinema.

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