Outro dia, depois de devorar meio pote de sorvete (do grande, é claro), quatro fatias de pizza, duas trufas (uma de maracujá) e uma uva (só pra aliviar a consciência), olhei pro espelho e disse:
— Eu sou viciado em comida.
Minha tia Valdete, que tudo ouve mesmo quando está na cozinha fritando coxinha, gritou da sala:
— Isso não é vício, é safadeza mesmo!
Pois bem. Hoje, abro o jornal, aquele com 150 anos de existência, e lá está a resposta que eu precisava: um vírus pode ser o responsável por esse tal “vício”! Não é fome emocional, nem gula, nem a tal safadeza. É ciência! Tá escrito: tem até estudo com mosca-das-frutas. E se a mosca tem razão, quem sou eu pra duvidar?
A matéria dizia que pessoas que passaram por transplante de microbiota — isso mesmo, trocaram as bactérias do intestino, tipo reforma de banheiro — começaram a mudar o comportamento alimentar. Uns que só comiam alface começaram a amar hambúrguer. E outros, que eram fãs de fast food, passaram a querer couve.
Na mesma hora liguei pro meu amigo Zé Roberto, que é hipocondríaco profissional:
— Zé, você já trocou suas bactérias hoje?
E ele:
— Ainda não, mas tô tomando kefir e passando clorofila atrás da orelha.
A ciência agora diz que o nosso intestino pode mandar na nossa cabeça! Eu sempre desconfiei que meu estômago era o verdadeiro CEO da minha vida — agora é oficial. E mais: tem bicho invisível que comanda o que a gente deseja! Um vírus que altera o triptofano, mexe com dopamina, serotonina, e faz a gente ir atrás do terceiro pedaço de bolo com uma culpa do tamanho do Everest.
Deu até uma certa emoção. Porque, veja bem, a culpa não é minha. É do meu microbioma. Ou de um vírus misterioso que se infiltrou entre a tapioca e o pão francês.
A boa notícia? Tem jeito. A má? Envolve estudo, ciência, pesquisa e, pior, moderação alimentar. Mas veja por outro ângulo: talvez o futuro traga cápsulas mágicas que façam brócolis ter gosto de milkshake. Ou que deem ao jiló o mesmo prazer de uma coxinha de feira.
Por enquanto, sigo tentando manter o equilíbrio. Um dia é salada, no outro é lasanha. No fundo, o importante é saber que, entre o prazer e o excesso, existe uma linha tênue — e, às vezes, microscópica. Literalmente.
E, se alguém me acusar de exagerado, já sei a resposta:
— Não sou eu. É o vírus que me habita.