Por isso o Golden Globes interessa até quando irrita. Ele não é o fim da linha; é a primeira parada. O Golden Globes decide o rumo da conversa para o Oscar.
Criado nos anos 40 por jornalistas estrangeiros baseados em Hollywood, num período em que o cinema americano consolidava sua influência global e precisava, ao mesmo tempo, de vitrine e diplomacia cultural, a ideia do Golden Globe era simples e ambiciosa: premiar Hollywood com olhos de fora e devolver ao mundo a imagem de Hollywood já editada como “evento”.
A história recente do prêmio virou também sinônimo de crise e reconstrução. O corpo votante foi ampliado e reformulado, com promessa pública de diversidade e maior número de eleitores, chegando nesta edição com mais de três centenas de votantes internacionais. O Golden Globes passou a operar sob um microscópio permanente: pressão por credibilidade, transparência, mecanismos de controle. O próprio gesto de expor a lista de votantes em seu site é, por si, um pedido de confiança feito em voz alta.
Na prática, isso muda o termômetro. Um corpo votante maior tende a reduzir idiossincrasias e a diluir caprichos. Mas o Golden Globes preserva um traço particular: sua vocação para premiar aquilo que faz sentido talvez apenas naquela noite.
Em 2026, as previsões de quem acompanha a corrida desenham um quadro nítido. O prêmio parece disposto a consagrar dois impulsos que a indústria tenta vender como compatíveis: autoria com megafone e cinema de gênero com pedigree. De um lado, “Uma Batalha Depois da Outra”, de Paul Thomas Anderson, aparece como o filme que oferece a premiação a pose da cinefilia, a ideia de que a festa também sabe reconhecer forma, risco, assinatura. De outro, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surge como a celebração do cinema popular quando ele chega com discurso, atmosfera, música, impacto de bilheteria e o peso de grande acontecimento.
Eu gosto quando o prêmio se denuncia nas próprias escolhas. Se “Uma Batalha Depois da Outra” vencer direção e roteiro, o Golden Globes está dizendo: “autor” voltou a ser uma palavra sedutora. Se “Pecadores” vencer drama e trilha: gênero voltou a ser respeitável quando chega com musculatura cultural.
Minhas apostas, portanto, não são um boletim qualquer, são leitura de sinais. Melhor Filme (Comédia ou Musical): “Uma Batalha Depois da Outra”. Melhor Direção: Paul Thomas Anderson por “Uma Batalha Depois da Outra”. Melhor Roteiro: “Uma Batalha Depois da Outra”. Melhor Filme (Drama): “Pecadores”. Melhor Trilha Sonora: “Pecadores”. Conquista Cinematográfica e de Bilheteria: “Pecadores”. Melhor Animação: “Caçadores de Demônios do K-Pop”. Melhor Canção Original: “Dourado”, de “Caçadores de Demônios do K-Pop”.
No campo das atuações, a conversa da temporada posiciona nomes fortes em lugares estratégicos — e acompanho essa temperatura com uma ressalva essencial: no Golden Globes, atuação premiada costuma ser também atuação que o prêmio consegue narrar. A noite gosta de histórias prontas para caber no close e no discurso, na celebração e no enquadramento.
Minha aposta mais pessoal, de desejo mesmo — vai para “O Agente Secreto”, embora “Valor Sentimental” seja unanimidade, e Wagner Moura, como um modo de o Golden Globes reafirmar seu lado internacional como centro de palco. Quando um filme como “O Agente Secreto” se impõe na temporada, traz também a narrativa de um cinema que atravessa fronteiras sem traduzir a própria alma. Se houver justiça poética na noite, Wagner pode ser o rosto dessa travessia, longe do exotismo premiável, mas como potência incontornável.
O Golden Globes também entendeu, nos últimos anos, que a televisão não precisa mais pedir licença para parecer “arte”. Ela já chega com gramática própria: a do trauma, do silêncio, do rosto em close. Por isso “Adolescência” tem cara de domínio. O desenho da temporada sugere que ela pode levar série limitada e prêmios de atuação, repetindo um caminho vitorioso em outras paradas recentes. Minhas apostas de TV seguem esse mapa: Série Limitada ou Filme para TV: “Adolescência”. Ator em Série Limitada ou Filme para TV: Stephen Graham por “Adolescência”. Ator Coadjuvante em TV: Owen Cooper por “Adolescência”. Atriz Coadjuvante em TV: Erin Doherty por “Adolescência”.
Mas também vejo espaço para um Golden Globes que distribui holofotes com eficiência, premiando onde há conversa pronta, rosto pronto, carisma pronto. “The Pitt” chega com o peso do drama que sustenta prestígio sem perder pulso popular: tensão, humanidade, fôlego. “O Estúdio”, por sua vez, carrega o motor da comédia inteligente que entende o próprio meio, brinca com as engrenagens da indústria e transforma bastidor em espetáculo: charme, ironia e timing. É exatamente esse tipo de sinal atual, sofisticado e, ao mesmo tempo, “televisionável” que o Golden Globes adora quando quer parecer contemporâneo sem perder glamour.
Tem até categoria podcast, acreditam? E creio que Amy Poehler, será a vencedora.
A cerimônia de 2026 acontece amanha, 11 de janeiro, no Beverly Hilton, com Nikki Glaser novamente na apresentação. E, no Brasil, a noite se espalha como o prêmio gosta: em múltiplas vitrines, para virar assunto em todo lugar. Será exibida pela HBO Max e pela TNT, com a Rede Globo levando o evento para a TV aberta. Pelo portal SPRIOMAIS você confere a análise da cerimônia, com todos os premiados, na segunda-feira.
Fabricio Correia é crítico de cinema e cobrirá o Golden Globes para portais Viva Noite, SPRIOMAIS e Th+Noticias



