Foto: Reprodução

Eu quero morar no Leblon de Maneco

Manoel Carlos está entre os maiores e pronto. Não é opinião: é constatação de quem viu a televisão brasileira aprender a conversar consigo mesma, abandonar um pouco o grito, baixar a luz, deixar a cena respirar. Maneco fez a TV descobrir que o cotidiano também é épico, desde que alguém saiba ouvir o que o cotidiano diz quando ninguém está olhando.

Já estava aposentado a mais de uma década — e morreu hoje, aos 92 anos. Saiu de cena como saem os autores raros: com um silêncio cheio de ecos. Porque a morte de um dramaturgo assim não fecha uma porta, acende um corredor inteiro de lembranças. A gente percebe que certas novelas não eram só novelas. Eram um jeito de o Brasil se enxergar no espelho sem maquiagem e, ainda assim, se reconhecer bonito.

Antes da Globo, antes do Leblon virar território dramático, antes de Helena virar quase um sobrenome afetivo do país, Manoel Carlos começou no teatro, nos anos 50, onde ficou quase uma década. Ali aprendeu uma coisa que nunca abandonou: a música do diálogo. O ator fala e, se o texto é bom, o público acredita que aquilo nasceu ali, na hora, como conversa de família. Maneco escreveu assim: com aquela naturalidade trabalhada, que é a mais difícil de todas.

Na televisão, sua estreia como novelista veio em 1978, na Globo, com “Maria, Maria”, sucesso no horário das seis e já ali se via o autor que preferia as frestas. Depois veio “A Sucessora”, reapresentada hoje como quem acende uma lamparina no meio do arquivo, homenagem delicada, mas pequena diante do tamanho do autor. Maneco merecia uma avenida inteira de tributos, não uma faixa discreta na programação.

Foi colaborador de Gilberto Braga em “Água Viva” (1980), e em seguida assinou “Baila Comigo” (1981), sua estreia no horário nobre, quando nasceu sua primeira Helena, essa criatura estranhamente real, que nunca é a mesma e, ainda assim, é sempre reconhecível. Helena é um país: muda de atriz, de idade, de circunstância, mas guarda uma espécie de DNA sentimental. Com Maneco, a heroína não era santa nem caricatura: era gente.

Em 1982, escreveu “Sol de Verão”, mas precisou se afastar após a morte de Jardel Filho, abalo que o desorganizou por dentro. Depois disso, saiu da Globo e escreveu obras para Band e Manchete, como quem muda de casa por um tempo, mas leva na mala a mesma caligrafia emocional. Até que, em 1991, voltou à Globo e entrou na fase de ouro: “Felicidade”, no horário das seis, foi uma dessas novelas que parecem simples e é aí que mora o golpe do Maneco: o simples, com ele, nunca era raso. Em seguida veio “História de Amor” (1995), outro sucesso do horário que confirmava o que o público já sabia: havia um autor ali que entendia o amor como campo minado e também como sala de estar.

Aí ele migra de vez para o horário nobre e para o Brasil inteiro parar. Em “Por Amor” (1997–1998), a troca de bebês virou um dilema moral nacional, desses que racham famílias no sofá e fazem o país discutir ética entre uma colher de arroz e um gole de café. Em “Laços de Família” (2000), a cena de Camila raspando o cabelo por causa do tratamento de leucemia virou um marco emocional coletivo, um daqueles momentos em que a televisão deixa de ser aparelho e vira presença.

Depois, em 2003, “Mulheres Apaixonadas” veio com temas fortes e uma coragem rara de colocar na sala do brasileiro aquilo que muitos preferiam deixar na rua, no noticiário, no “isso não é assunto pra novela”. Maneco foi fazendo o que os grandes fazem: empurrando o país para dentro de conversas que ele evitava. A violência doméstica, a violência contra o idoso, o alcoolismo, o ciúme doentio, a manipulação emocional e, junto disso, os afetos em estado bruto, com suas contradições, suas covardias e suas grandezas.

Vieram ainda “Páginas da Vida” (2006) e “Viver a Vida” (2009), mantendo essa marca que é dele: sofisticação sem frescura, drama sem palhaçada, vilãs com maldade possível, de gente, não de desenho animado. Até suas perversidades eram educadas. Era o mal com batom caro, mas pé no chão.

Sua última novela, “Em Família” (2014), foi mais compacta, mais miúda, mais fiel a essa ideia dele de que conflito humano é coisa que mora ao lado e não num palácio. Sofreu críticas e aí entra a parte mais injusta do nosso tempo: medir qualidade de texto e de encenação por número de audiência, como se literatura fosse o número dos leitores que leem a obra no mesmo instante. Nem todo mundo está preparado para uma história que não corre. E Maneco não corria. Maneco caminhava. Às vezes o público quer sprint; ele oferecia caminhada ao pôr do sol. E isso, para muitos, parecia “pouco”. Era tudo.

Além das novelas, ele escreveu minisséries como “A Presença de Anita” (2001) e “Maysa – Quando Fala o Coração” (2009), confirmando que sua sensibilidade também sabia ser ousada, incisiva, perturbadora, sem perder a elegância de quem não apela.

O que mais impressiona em Manoel Carlos é o conjunto: ele tratou temas que eram tabu quando tabu ainda tinha força. Bissexualidade, aborto, deficiência física, síndrome de Down, rejeição, relações atravessadas por diferença de idade, paixões impróprias, celibato, câncer, traição, família como campo de batalha, e o amor, sempre ele, como essa coisa que salva e destrói com a mesma mão. Ele tecia histórias com primor porque entendia que o folhetim não é um gênero menor: é um gênero popular. E o popular, quando é bom, é grande. O Brasil aprende muito do que sente vendo novela. Maneco levou isso a sério.

E como faz falta o Leblon dele. Não o Leblon postal, turístico, de cartão bonito: o Leblon como laboratório de sentimentos, onde a classe média alta também sangra, trai, ama, mente, pede perdão, não perdoa, e segue. Faz falta, sobretudo, a coragem de escrever sem sublinhar. Faz falta aquela confiança no público: “eu não vou explicar, vocês vão entender”.

Agora resta rever. Rever como quem volta a uma música antiga e percebe que ela não envelheceu: envelheceu a gente — e ainda assim ela acerta. Resta revisitar essas Helenas, tão diferentes uma da outra, deixando claro que sempre uma nova história seria contada. E aí, no meio dessa saudade, eu confesso um desejo que parece brincadeira, mas não é: eu quero morar no Leblon de Manoel Carlos.

Já imagino meu futuro ali, num consultório de musicoterapia e vibroacústica. Uma Helena entra; elegante, cansada, humana como só as Helenas sabem ser. Ela se senta, tenta sustentar a pose, depois desiste. Eu ajusto o som, as frequências, e o corpo dela, que há anos carrega o mundo, finalmente encontra um lugar para pousar. Não é milagre. É escuta. É cuidado. É o mesmo pacto que Maneco sempre fez com a gente: não prometer felicidade — mas oferecer lucidez.

Manoel Carlos morreu hoje, aos 92 anos. Mas deixou uma coisa que poucos deixam: um ritmo. E ritmo é o que fica quando a frase termina. Viva Manoel Carlos e que a televisão brasileira, de vez em quando, se lembre de falar baixo. Porque Maneco mostrou que, às vezes, é no tom baixo que a gente escuta o que é eterno.

Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Íntegra a Academia Brasileira de Cinema e apresenta o late show “Vale Night” no SBT.

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