Foto: Reprodução

Estreia: “O Primata”

“O Primata” tem um mérito que aparece antes de qualquer explicação: quando Ben surge, o filme finalmente respira no compasso certo do terror. O chimpanzé tem presença e materialidade, ocupa o espaço como ameaça de verdade e não como truque aplicado por cima da imagem. Há um senso de perigo físico, de corpo em choque com cenário, e isso faz diferença num subgênero que costuma perder força quando troca peso por espetáculo.

A história coloca Lucy de volta à mansão da família no Havaí, retomando uma convivência atravessada por distâncias antigas e por uma ausência recente. A irmã mais nova não perdoa o afastamento, o pai segue fechado em si e em suas urgências, e a casa — grande, bonita, isolada — funciona como palco perfeito para uma tragédia doméstica que poderia nascer tanto do silêncio quanto do grito. Ben, adotado e treinado pela matriarca, carrega a estranheza de ser herança afetiva e também lembrança viva de alguém que não está mais ali; quando a raiva entra em cena, a memória deixa de ser só memória e vira risco imediato.

O filme, porém, não se contenta em ser o que sabe fazer melhor. Ele insiste em amarrar tudo a uma ideia de superação familiar, de reconciliação e luto, como se precisasse se justificar a cada sequência de ataque, como se o prazer básico do gênero — prender o espectador num espaço com um predador e administrar a tensão — fosse insuficiente por si. Essa tentativa de “importância” pesa, porque as cenas dramáticas entram na narrativa com um ar protocolar, mais preocupadas em declarar sentimentos do que em deixá-los acontecer. O resultado é um vai e vem de intensidade: quando o filme engrena na dinâmica de caça, ele fica bom; quando resolve parar para lembrar que também quer ser drama, ele perde a mão e quebra o ritmo que vinha construindo.

O que funciona com clareza está na engenharia das situações. “O Primata” entende a casa como um tabuleiro e trabalha com zonas de confronto bem definidas, como se desenhasse um percurso de sobrevivência onde cada porta, corredor e desnível tem um papel. A economia de recursos, em vez de virar vergonha, às vezes vira solução: Ben se move com menos exuberância do que um monstro digital caríssimo se moveria, mas, em compensação, parece mais crível diante da câmera, mais compatível com a luz e com o espaço. Há momentos em que o filme vira quase uma “sala de fuga” macabra, sustentado por decisões simples de mise-en-scène e por uma noção eficiente de perigo se aproximando, recuando e reaparecendo onde não deveria.

Ainda assim, a experiência como um todo fica irregular porque o longa não confia no próprio instinto. Ele quer ser seco e direto, mas recua para explicar, sublinhar, costurar uma gravidade que não encontra a mesma força nos personagens e no texto. O espectador percebe a diferença de temperatura: a criatividade e a tensão estão nas sequências de ataque e na administração do espaço; a parte “humana”, que deveria intensificar tudo, acaba soando como intervalo.

No fim, o coração de “O Primata” aparece quando o filme para de se mirar no espelho e aceita o básico com honestidade: um predador, uma casa, um grupo encurralado, o medo funcionando como mecanismo de cinema. É ali que ele é mais vivo — e é por isso que fica a frustração de ver esse mesmo filme desperdiçar tempo tentando parecer outra coisa.

Cotação: ★★☆☆☆

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