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Oscar 2026: uma análise de Hollywood e os prováveis ganhadores da estatueta dourada

Na véspera do Oscar, quando a indústria americana parece sustentar a respiração como quem aguarda não apenas uma cerimônia, mas uma espécie de autorretrato em movimento, o que se vê nas projeções não é só uma lista de favoritos: é a radiografia de um mercado. O prêmio, neste momento, menos consagra do que revela. Ele mostra para onde o cinema dos Estados Unidos está inclinando o corpo, quais valores deseja vender ao mundo, quais linguagens pretende legitimar, as mitologias que ainda quer preservar e quais novidades aceita incorporar sem afrontar a própria tradição. Por isso, ao olhar para os nomes que chegam à noite decisiva com a força dos inevitáveis, percebe-se que a Academia não está apenas escolhendo vencedores: está narrando a si mesma. E a narrativa desta temporada é a de uma Hollywood partida entre o apetite pelo gigantismo técnico, a necessidade de parecer culturalmente sensível neste tempo de “horror” e o desejo nunca abandonado de se reconhecer na solenidade de um grande cinema de autor.

Tudo leva a crer que o prêmio principal, o de melhor filme, caminhe para “Uma Batalha Após a Outra”, e não é difícil compreender por quê. Há anos a Academia procura obras que consigam preservar o prestígio do cinemão sem se tornarem peças de museu, filmes que soem importantes sem parecerem cadáveres embalados em reverência. O longa de Paul Thomas Anderson chega com essa presença exata: o de uma obra que parece clássica antes mesmo de envelhecer. Não por acaso, o mesmo filme surge como favorito em roteiro adaptado, montagem e fotografia, como se a indústria reconhecesse nele o tipo de excelência total que permite ao Oscar vestir sua roupa mais nobre, aquela em que ainda se imagina guardiã da alta linhagem cinematográfica americana. A provável vitória de Anderson em direção reforça essa impressão. Ele encarna, neste momento, algo muito caro ao mercado: a ideia de que ainda é possível unir assinatura autoral, reputação crítica, musculatura industrial e apelo de temporada. Não se trata apenas de um cineasta premiável; trata-se de um nome que conforta a Academia, porque permite premiar sofisticação sem abrir mão do espetáculo simbólico da grande obra.

Mas se “Uma Batalha Após a Outra” representa o desejo de permanência, “Pecadores”, o filme com o maior número de indicações da história do Oscar, 16, encarna a pulsação do presente. Seu favoritismo em roteiro original, trilha sonora e elenco, além da força de Michael B. Jordan como melhor ator, mostra um outro movimento do mercado americano: o cinema que não se contenta em ser bem feito, mas quer ser lido como acontecimento cultural. Ryan Coogler, mesmo sem chance na disputa de direção, parece ter concebido um filme que dialoga de maneira mais direta com o espírito deste tempo, um tempo em que Hollywood entende que já não basta oferecer narrativa; é preciso centralidade simbólica, repercussão, conversa pública, energia de urgência. “Pecadores” traz essa vibração. Sua força não está apenas no que conta, mas na posição que ocupa dentro de um novo imaginário industrial, em que o cinema de estúdio procura reaprender a relevância por meio de obras que cruzem identidade, gênero, comentário social e sofisticação pop. A provável estatueta para Michael B. Jordan, desbancando Chalamet, revela isso com nitidez: sua vitória, se vier, será menos a recompensa a um ator isolado e mais a coroação de um modelo de estrela que Hollywood busca consolidar, alguém capaz de unir densidade dramática, presença física, consciência histórica e valor de mercado.

É igualmente eloquente que “Frankenstein” apareça como favorito em figurino, maquiagem e cabelo, além de desenho de produção. Nesses campos, o Oscar preserva uma velha fidelidade: ama mundos. Ama a matéria do cinema quando ela é palpável, quando se traduz em tecido, textura, superfície, ferrugem, penumbra, máscara, corte, mobiliário, arquitetura moral do espaço. O monstro, aqui, não vale apenas pelo imaginário literário que carrega, mas pelo fato de permitir à indústria premiar o artesanato em sua forma mais majestosa. Num mercado profundamente digitalizado, em que a imagem corre o risco de perder corpo, a consagração técnica de “Frankenstein” funciona quase como um gesto de resistência simbólica: ainda se deseja honrar aquilo que se pode tocar, costurar, construir, envelhecer, iluminar. É uma maneira de recordar que Hollywood continua sendo uma fábrica, e que parte de sua nobreza histórica sempre esteve na oficina.

Ao mesmo tempo, ninguém ignora que a fábrica mudou. Em som, tudo indica a vitória de “F1”, e não há surpresa nisso. O cinema industrial americano contemporâneo voltou a compreender o espetáculo físico como um ativo econômico central. A experiência de sala precisa competir com a dispersão doméstica, com o streaming, com a fragmentação de atenção, com as telas pequenas e os algoritmos. Para vencer essa batalha, o cinema precisa oferecer corpo, impacto, sensação. Filmes sobre velocidade, motores, risco e vibração têm vantagem natural num prêmio como o Oscar porque lembram à Academia uma verdade material: o som ainda é uma das grandes formas de devolver ao espectador a experiência da presença. Já em efeitos visuais, a dianteira de “Avatar: Fogo e Cinzas” confirma outro dado do mercado. James Cameron talvez seja o último grande imperador de uma Hollywood que acredita, sem ironia, no futuro tecnológico do cinema. Premiar “Avatar” nessas condições significa reconhecer que, embora o discurso crítico adore exaltar intimidade e autorismo, o coração econômico da indústria continua batendo com força quando encontra imagens capazes de ser vendidas como evento planetário. O Oscar, nesses casos, opera como selo de legitimidade para um investimento colossal. Não é só arte; é validação de engenharia.

Na animação, a provável vitória de “Guerreiras do K-Pop”, e também da canção “Golden”, aponta para um aspecto decisivo do mercado americano atual: sua crescente dependência da imaginação global. A animação que vence hoje já não é apenas herdeira da gramática clássica dos estúdios americanos; ela conversa com o anime, com a cultura digital, com o videoclipe, com a iconografia pop transnacional, com a música como vetor narrativo. A ascensão da cultura coreana, que deixou de ser nicho para se tornar centro, encontra nessa dobradinha, filme e canção, uma expressão industrial muito reveladora. Hollywood já não exporta apenas Estados Unidos; exporta uma curadoria americana do desejo global. Quando um produto assim se impõe, o que está sendo premiado é a capacidade do cinema americano de absorver tendências internacionais, embalá-las com eficácia industrial e devolvê-las ao mundo como mercadoria sofisticada e irresistível. O mesmo vale, em escala diferente, para o favoritismo de “Borboleta”, de Florence Miailhe em curta de animação, para “O Vizinho Perfeito” em documentário e para “Todos os Quartos Vazios” em curta documental: em todos esses casos, a Academia parece premiar obras que condensam, cada uma a seu modo, uma exigência contemporânea de concisão, marca autoral e legibilidade imediata.

No documentário, aliás, a provável escolha de “O Vizinho Perfeito”, diz muito sobre a sensibilidade política que o mercado deseja ostentar. O documentário americano recente passou a funcionar também como espaço moral da indústria, o lugar em que Hollywood tenta demonstrar vigilância ética, empatia social, disposição para o debate público. Premiar documentários, hoje, é uma forma de enunciar consciência. O mesmo se observa em “Todos os Quartos Vazios”, favorito em curta documental, enquanto no curta em live action a dianteira de “Duas Pessoas Trocando Saliva”, sugere o apreço da Academia por experiências de intimidade radical, por obras pequenas no tamanho e largas no impacto sensorial, capazes de fazer do gesto mínimo uma inscrição de estranheza e modernidade.

Na categoria internacional, vou deixar meu ufanismo, embora tenha gostado de “O Agente Secreto” e dizer que o favoritismo de “Valor Sentimental”, indica a permanência de um gosto acadêmico por filmes estrangeiros que trazem consigo respeitabilidade emocional, um refinamento formal que não ameaça a inteligibilidade e uma melancolia bem dosada, passível de circular com elegância entre festivais, crítica e público especializado. Mas, para nós, brasileiros, o verdadeiro ponto de combustão está na presença de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e celebrar que a repetição da indicação após o Oscar por “Ainda estou aqui”, já é o ápice. Há filmes que vencem ao conquistar a estatueta; outros que vencem antes, no exato momento em que obrigam o centro do cinema mundial a pronunciar seu nome. “O Agente Secreto” pertence a essa segunda categoria. Sua presença entre os escolhidos já representa uma irrupção. Num cenário em que o mercado americano se mostra cada vez mais fechado em torno de estratégias de circulação muito específicas, a simples entrada de um filme brasileiro nesse espaço de visibilidade máxima tem valor histórico, simbólico e cultural. Mesmo que o Oscar tenda a consagrar “Valor Sentimental”, o percurso de “O Agente Secreto” não se mede pela ausência eventual do prêmio, mas pela grandeza do lugar que ocupou. Ser lembrado pela Academia não significa estar à porta dela, mas já ter entrado na sala principal. E o cinema brasileiro, quando ali entra com densidade, não chega como coadjuvante exótico: mas como linguagem, como pensamento, como forma adulta de cinema. E isso amplia nossa indústria.

Nas categorias de atuação, o desenho do mercado é igualmente eloquente. Se Michael B. Jordan desponta à frente entre os atores, Jessie Buckley aparece como favorita absoluta entre as atrizes, Amy Madigan lidera entre as coadjuvantes e Sean Penn entre os coadjuvantes masculinos. A combinação desses nomes revela uma Academia que continua apaixonada por intensidade e pedigree. Jordan encarna a estrela contemporânea em mutação; Buckley simboliza a atriz de prestígio cuja força parece dispensar ornamentação; Amy Madigan representa a permanência do respeito aos intérpretes de gravidade discreta, e Sean Penn continua sendo o rosto de uma tradição de atuação masculina que Hollywood reluta em abandonar, uma mistura de peso moral, desgaste visível e autoridade cênica. Não se trata apenas de talento: trata-se de que tipo de corpo, de idade, de energia e de reputação a indústria ainda quer ver elevada ao altar. O Oscar, nessa esfera, continua funcionando como um sistema de consagração de rostos que ajudem Hollywood a parecer séria diante de si mesma.

O que emerge de tudo isso é um retrato fascinante de um mercado em busca de equilíbrio, ou talvez em busca de desculpas elegantes para suas contradições.

Mas o Oscar, querido leitor, nunca é apenas aquilo que premia. É também aquilo que teme perder. O cinema americano de hoje vive sob o fantasma da dispersão. O público já não pertence a ninguém, as bilheterias deixaram de ser garantia, o streaming dissolveu hierarquias, as franquias cansam, os festivais já não têm o monopólio da descoberta, a crítica luta para continuar relevante e a ideia de “centro cultural” parece cada vez mais movediça. Nesse contexto, a cerimônia do Oscar se torna um ritual de recomposição de autoridade. Ela tenta dizer: ainda sabemos distinguir o que importa. E, por isso, suas escolhas são sempre menos inocentes do que parecem.. Mas, mesmo antes do anúncio, o desenho já está feito. E talvez seja isso, no fim, o que mais interessa a quem olha o Oscar não como torcida, mas como sintoma: perceber que os prêmios falam menos dos filmes isoladamente do que da civilização industrial que precisa deles para continuar acreditando em sua linhagem.

Fabrício Correia é crítico de cinema. Membro da Academia Brasileira de Cinema e da União Brasileira de Escritores.

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