A morte do influencer Carlos Filhar, depois de uma carta pública de despedida, interrompeu mais do que uma trajetória pessoal e afetiva, porque ao seu redor não havia apenas um homem, mas uma narrativa compartilhada que vinha sendo construída diante de milhares de olhos, uma espécie de vida acompanhada em tempo real, onde o amor com Arthur, um jovem de 21 anos, era visto, comentado e, de certa forma, apropriado por quem assistia, como se a intimidade, ao ser exposta, deixasse de pertencer inteiramente a quem a vive e passasse a circular como um bem coletivo, aberto à interpretação, ao afeto e, sobretudo, ao julgamento.
O que se vê agora, no entanto, além da dor de uma perda, é o movimento quase automático de uma sociedade que, incapaz de compreender o alerta que uma morte provoca, tenta reorganizar o acontecimento distribuindo culpas, procurando causas lineares e elegendo responsáveis visíveis, como se isso pudesse apaziguar a angústia de todos, e é nesse ponto que o nome de Arthur surge arrastado para um lugar que não lhe pertence, porque transformar um jovem em depositário simbólico de uma tragédia é uma forma de violência que se soma ao próprio luto e revela mais sobre o funcionamento coletivo do que sobre a verdade do que foi vivido entre os dois.
A leitura que emerge de muitos comentários, inclusive aquele que circula amplamente nas redes, aponta algo que deveria ser evidente, mas que precisa ser reafirmado com firmeza: ninguém pode ser responsabilizado pela decisão extrema de outro, sobretudo quando essa decisão se inscreve num campo complexo que envolve saúde mental, história emocional, fragilidades acumuladas, experiências de rejeição e dores que não começaram no instante de um conflito amoroso, mas que se constituem ao longo de uma vida inteira, muitas vezes sem elaboração suficiente, sem escuta adequada e sem o suporte necessário para que o sofrimento encontre linguagem antes de se transformar em ruptura.
Reduzir a morte de Carlos a um episódio isolado dentro de um relacionamento, ou a uma traição, ou a uma diferença de idade, é eticamente perigoso, porque simplifica aquilo que, por natureza, é múltiplo e profundo, e impede que se olhe para o que realmente importa: o modo como nossa época produz sujeitos expostos, emocionalmente tensionados, atravessados por expectativas irreais de felicidade e pouco amparados quando essa premissa se dissipa, como inevitavelmente se rompe em qualquer experiência humana.
A internet, nesse cenário, é agente ativo de transformação psíquica, já que desloca o eixo da vida para fora, estimula a construção contínua de uma imagem e instala uma dependência do olhar coletivo que, embora pareça oferecer pertencimento, muitas vezes fragiliza a capacidade de lidar com frustrações no silêncio necessário, aquele em que a dor pode ser pensada, elaborada, atravessada sem a urgência de resposta, sem a necessidade de coerência narrativa e principalmente sem a pressão de parecer inteiro quando tudo dentro de si está em ruína.
Quando um relacionamento é vivido sob exposição constante, o término deixa de ser uma experiência íntima e passa a carregar o peso de uma queda pública, porque não se perde somente o outro, mas a história que havia sido contada, a imagem sustentada, a identificação construída diante de quem assistia, e essa sobreposição de perdas pode produzir um efeito devastador, sobretudo quando não há estrutura emocional suficiente para sustentar o colapso simultâneo do vínculo e da identidade.
É nesse ponto que a discussão precisa sair do campo raso do julgamento e entrar numa dimensão mais responsável, porque Arthur, com seus 21 anos, não pode ser reduzido a personagem de uma narrativa moral que o transforma em culpado, já que isso ignora não apenas a complexidade do vínculo que viveu com Carlos, mas também a própria condição humana, feita de erros, tentativas, aprendizados e limites, como bem aponta o comentário que circula, ao lembrar que a vida é um emaranhado de acertos e falhas e que ninguém deveria carregar nas mãos o peso da vida ou da morte de outro.
O que se impõe, diante de tudo isso, é uma mudança de postura coletiva, uma recusa consciente em alimentar a lógica que transforma dor em espetáculo e pessoas em alvos, porque existe uma família atingida por uma perda irreparável, existe um jovem atravessado por um luto que nenhum julgamento pode aliviar e existe, sobretudo, um sinal claro de que precisamos falar com mais seriedade sobre saúde mental, sobre os efeitos da exposição contínua, sobre a dificuldade contemporânea de lidar com rejeição e frustração e sobre a urgência de construir espaços de escuta que não estejam submetidos à lógica imediata da internet.
Talvez a maior lição que emerge desse episódio não esteja na tentativa de explicar o que aconteceu, mas na necessidade de repensar como estamos vivendo, porque uma cultura que incentiva a exposição total, que valoriza a validação constante e que responde à dor com julgamento rápido é uma cultura que fragiliza seus próprios sujeitos, empurrando-os para uma existência em que a imagem pesa mais do que a experiência e em que o olhar do outro se torna mais determinante do que a própria capacidade de sustentar a vida por dentro.
A vida de Carlos Filhar não pode ser reduzida ao modo como terminou, assim como o amor que viveu com Arthur não pode ser simplificado pelo olhar externo, e a única resposta possível diante disso tudo é uma ética do cuidado, que reconheça os limites do nosso olhar, respeite a dor alheia e recuse a tentação de transformar o sofrimento em narrativa fácil, porque há momentos em que o mais humano que se pode fazer não é dizer, não é explicar, não é julgar, mas simplesmente compreender que certas histórias não nos pertencem, embora nos atravessem.
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Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Especialista em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão, é colaborador do portal Em Off.



