Estreia: O Diabo veste Prada 2

No instante em que alguém ousa revisitar um clássico, não se trata mais de cinema — trata-se de memória. O Diabo Veste Prada 2 nasce sob esse peso: o de responder a uma pergunta que ninguém fez em voz alta, mas todos carregavam — era necessário voltar?

A resposta, curiosamente, não está no passado que o filme evoca, mas no presente que ele encara. Se O Diabo Veste Prada era uma anatomia do poder na moda, sua continuação desloca o eixo para um território mais instável: o colapso das certezas. O brilho continua, os saltos continuam, as roupas continuam, mas o mundo que sustentava essa estética já não existe como antes.

Há nostalgia, claro. O suéter cerúleo reaparece como um eco de um tempo em que escolhas ainda pareciam pessoais, a música retorna como quem tenta convocar uma sensação perdida, e os olhares entre personagens carregam uma intimidade que só o tempo poderia oferecer. Mas o filme não se limita a repetir, e nesse gesto, encontra sua razão de existir.

Miranda Priestly já não domina o ambiente com a mesma soberania. Não porque tenha perdido força, mas porque o poder se descentralizou. Agora, ele veste outros corpos: investidores invisíveis, algoritmos impessoais, bilionários que compram legados como quem adquire objetos de coleção. O diabo, afinal, não desapareceu, mas multiplicou-se em outras presenças.

Essa mudança tem um preço dramático. Ao humanizar Miranda, o filme ganha em afeto, mas perde em tensão. A figura que antes organizava o mundo como antagonista absoluta agora oscila entre fragilidade e resistência. Ainda assim, é nesse espaço que Meryl Streep realiza algo raro: não repete, revisita. Sua interpretação não tenta recriar o impacto original, mas expandi-lo, como se dissesse que até os ícones envelhecem  e, ao envelhecer, revelam novas camadas.

Andy Sachs retorna menos ingênua, mais consciente, mas igualmente atravessada por um sistema que continua exigindo concessões. Sua trajetória dialoga com o presente: talento já não garante estabilidade, e competência não protege da instabilidade estrutural. O jornalismo, aqui, é sintoma.

Emily, por sua vez, emerge como uma sobrevivente do próprio sistema que antes a consumia. Há algo de vitorioso em sua trajetória: ela não rompeu; adaptou-se. E talvez essa seja a crítica mais dura do filme: não vencem os mais talentosos, mas os que aprendem a jogar sem culpa. E também não vencem o tempo todo.

O roteiro, por vezes, cede à tentação do espelho. Reencena situações, reorganiza dinâmicas, troca Paris por Milão como quem muda a moldura sem alterar o quadro. Em alguns momentos, o ritmo se apressa e certas tramas, especialmente afetivas, parecem existir mais por obrigação do que por necessidade. Mas há honestidade nisso tudo.

E talvez seja exatamente isso que o torna relevante. O Diabo Veste Prada 2 não tenta superar o original, tenta sobreviver a ele. E consegue. Não como obra definitiva, mas como gesto consciente de seu tempo.

No fim, resta uma constatação silenciosa: o primeiro filme ensinava como entrar no jogo. Este mostra que o jogo mudou e ninguém, nem mesmo Miranda, controla as regras.

É menos afiado, menos icônico, menos cruel. Mas é, de um modo estranho e sincero, mais humano.

E isso, hoje, talvez seja ainda mais incômodo.

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