Em Viva! Vida!, Regina Casé não entra em cena para organizar o mundo. Entra para mostrar que o mundo já não cabe em nenhuma organização. Cosmos, filhos, memória, ciência, celular, medo, riso, algoritmo, maternidade, morte e esperança aparecem juntos, embaralhados como a própria existência. Nada vem em gavetas. Tudo se atravessa.
No início do espetáculo, o celular de Regina toca durante a peça. O recurso poderia render apenas uma brincadeira com a plateia, mas cresce dentro da encenação e se transforma num retrato exato do nosso tempo. O aparelho adentra o teatro como interrompe o jantar, o sono, o amor, a escuta, o pensamento. Já não somos nós que carregamos o telefone. Em muitos momentos, é ele que nos carrega.
A graça está justamente no desconforto. Regina ri da situação, mas o riso não absolve ninguém. A cena revela uma humanidade que entregou seus hábitos, seus desejos e até sua solidão aos algoritmos. As máquinas aprendem aquilo que compramos, aquilo que tememos, aquilo que fingimos não desejar. Sabem a hora em que acordamos, os rostos que procuramos, os assuntos que nos enfurecem. Enquanto imaginamos navegar livremente, somos conduzidos por caminhos escolhidos antes mesmo do primeiro toque na tela.
O espetáculo não trata essa prisão com discurso severo. Regina prefere a ironia, a conversa, a memória de família, as histórias dos filhos. É nessa mistura que a peça encontra sua verdade. O pensamento sobre o universo não surge apartado da vida doméstica. A cosmologia convive com a maternidade. A origem das estrelas encontra a bagunça da casa. O tempo profundo do planeta esbarra no tempo íntimo de quem cria filhos e descobre, cedo ou tarde, que nenhum filho pertence inteiramente aos pais.
Quando fala deles, Regina toca num dos centros emocionais da montagem. Gerar uma vida não significa governá-la. Educar alguém é assistir a um ser humano afastar-se, ganhar linguagem própria, desejos próprios, dores que nenhum cuidado consegue impedir. A maternidade aparece como uma forma radical de espanto: um corpo produz outro corpo, uma história produz outra história, e o amor precisa aprender a conviver com aquilo que não controla.
Carl Sagan olhava para a Terra e via um ponto frágil perdido na escuridão. Stephen Hawking olhava para o tempo e percebia que nossas certezas ocupavam uma região mínima do mistério. Regina olha para o telefone tocando, para os filhos, para a plateia e para o próprio corpo envelhecido. O infinito, em seu espetáculo, não mora apenas nas galáxias. Mora também na impossibilidade de compreender completamente outra pessoa.
A cultura Munduruku atravessa essa reflexão como um contraponto profundo à arrogância tecnológica. Para o pensamento de muitos povos originários, a vida não se divide entre humanidade de um lado e natureza do outro. O rio não é pano de fundo. A floresta não é mercadoria. O animal não é uma presença inferior. Tudo participa de uma mesma trama.
O algoritmo separa, classifica, prevê, vende. A sabedoria ancestral relaciona.
Essa oposição dá força filosófica ao espetáculo. De um lado, uma civilização que pretende converter a experiência em dados. Do outro, uma visão de mundo que reconhece parentesco entre corpos, rios, árvores, animais e espíritos. No meio, Regina Casé, brasileira até a raiz da voz, costurando ciência, afeto e cultura popular sem transformar nenhum desses campos em ornamento.
A direção de Daniela Thomas e Estêvão Ciavatta Pantoja compreende que a peça precisa conservar esse caráter de pensamento em movimento. Não existe uma linha reta, porque a consciência também não funciona assim. Uma lembrança chama outra, as piadas desembocam em perguntas e a imagem do universo se aproxima das histórias familiares. O espetáculo vai crescendo pela associação, atrito e pela vertigem.
A cenografia acompanha esse fluxo. As telas, projeções e estruturas visuais ampliam o palco e colocam Regina diante de escalas que variam do microscópico ao planetário. Em alguns instantes, ela parece pequena diante das imagens; em outros, sua presença domina todo o espaço. Essa oscilação traduz uma das ideias mais bonitas da montagem: somos quase nada diante do cosmos, mas cada vida se torna imensa quando vista de perto.
O risco de uma encenação construída com tantos recursos seria transformar o palco numa apresentação tecnológica. A direção evita essa armadilha porque devolve sempre o centro à atriz. Nenhuma projeção compete com o rosto de Regina. Nenhuma imagem do universo supera a força de um corpo vivo falando diante de outros corpos vivos.
A cenografia também torna visível a contradição contemporânea. O espetáculo não critica a captura digital usando telas, luzes e dispositivos, e não procura escapar dessa contradição. Assume-a. Somos todos parte do sistema que questionamos. Denunciamos o excesso olhando para outra tela. Pedimos silêncio enquanto o celular permanece aceso. Desejamos liberdade, mas tememos desaparecer por algumas horas.
Viva! Vida! é tudo junto e misturado porque viver também é assim. A ciência não elimina a superstição. A tecnologia não elimina a solidão. A maternidade não elimina o medo. O humor não elimina a morte. Cada coisa permanece dentro da outra.
No fim, o espetáculo não pede que abandonemos as máquinas nem que idealizemos um passado puro, mas que nos embrenhemos na gênese da terra. Pede algo mais difícil: consciência. Talvez o verdadeiro maravilhamento comece justamente nesse instante.



