Foto: Reprodução

Um país inteiro debaixo dos livros

O Brasil começou a cair quando puxei um livro, neste sábado que antecede a eleição, e precisei ampará-lo com o joelho, porque uma das mãos segurava uma caneca e a outra tentava convencer uma pilha de papéis de que ainda era possível permanecer onde estava, negociação que conduzi com a seriedade de quem acaba de descobrir que também participa daquilo que condena.

Eu entrara no quarto para arrumar alguma coisa, embora agora me pareça que procurava uma ocupação para as mãos enquanto o domingo não chegava, pois a véspera de uma eleição se instala no corpo de um modo que nenhuma pesquisa consegue medir, deixando a gente à espera de um barulho mesmo quando o telefone está quieto e a televisão desligada.

Na prateleira de cima, uma caixa de sapatos ocupava espaço ao lado dos livros que ganhei esta semana de Edney Silvestre, e aquela vizinhança, que em outro dia eu defenderia com alguma teoria sobre a liberdade dos objetos, pareceu-me subitamente abusiva, sobretudo porque eu não sabia o que guardava dentro da caixa e sabia o trabalho que custara escrever cada um daqueles livros, mas a caixa chegara primeiro ou fora colocada por cima, duas credenciais que, neste país e no meu quarto, costumam assegurar uma permanência respeitável.

Pensei em retirá-la e desisti ao perceber que precisaria mexer em tudo, desculpa que pronunciei apenas dentro de mim, com a voz baixa e razoável que usamos para conservar exatamente aquilo de que estamos reclamando.

Um livro estava deitado sob os outros, quase inteiramente encoberto, e precisei levantar algum peso para conseguir ler seu título, movimento que me fez pensar em quantas pessoas atravessam a vida sem que ninguém se dê ao trabalho de afastar aquilo que as impede de aparecer, enquanto outras recebem, antes mesmo de saberem o próprio nome, uma prateleira na altura dos olhos.

Era por ali que a eleição entrava no quarto, pela distância entre quem precisou alcançar a estante e quem recebeu de herança o direito de decidir o que os outros poderiam retirar dela.

De um lado, Lula, o menino que aprendeu tardiamente a ler e cresceu sem chegar à universidade, carregando depois, pela vida pública, o insulto de analfabeto que tanta gente instruída lhe atira com um prazer revelador, como se aprender depois, aprender menos do que se desejava ou não conseguir permanecer na escola constituísse uma culpa pessoal, enquanto reservar o ensino aos que podem pagá-lo fosse apenas o funcionamento natural das coisas.

Do outro, Flávio Bolsonaro, o filho de um militar que pôde estudar, amparado por um sobrenome que já lhe abria caminho, e que, aos meus olhos, encarna essa contradição brasileira de receber as vantagens da instrução e fazer carreira cortejando o desprezo pelo conhecimento, oferecendo a quem foi privado de aprender o consolo perverso de que aprender não presta.

Eu olhava para os livros e pensava que a diferença entre os dois passava pelo que cada um pretendia fazer com a porta, porque um homem sem diploma universitário pode compreender a cultura como um direito de entrada, enquanto um homem diplomado pode preferir que a multidão permaneça do lado de fora, suficientemente ressentida para hostilizar a biblioteca, suficientemente distante para nunca descobrir o que lhe foi negado.

O que me ofendia naquela palavra, analfabeto, era a boca satisfeita de quem a pronunciava, a segurança com que alguém transformava a privação alheia em prova da própria superioridade, sem perceber que, naquele instante, todo o seu estudo servia apenas para humilhar melhor.

Tirei o livro de baixo da pilha e o abri sem procurar uma passagem, deixando os olhos pousarem numa página qualquer, porque me pareceu um privilégio imenso poder fazer aquilo sem pedir auxílio, e pensei no constrangimento de quem recebe um papel e finge procurar os óculos, de quem acompanha com o dedo uma indicação que não consegue decifrar, de quem precisa confiar a outra pessoa uma informação que deveria poder guardar para si.

Era para essa pessoa que uma biblioteca pública precisava abrir a porta, inclusive quando ela ainda não pudesse ler nenhum de seus livros, porque o acesso começa antes da primeira linha, começa na possibilidade de entrar sem sentir que se está ocupando o lugar de alguém mais merecedor.

Sobre a cômoda, os pincéis de maquiagem dividiam espaço com os filmes e um controle remoto, e gostei de encontrar ali uma parte de mim que não pedia desculpas, porque conheço o prazer de preparar o rosto para aparecer diante das câmeras e dos outros, sei o quanto uma cor escolhida pode devolver ao corpo a vontade de sair, e me revolta que alguém pretenda governar até esse instante miúdo em que uma pessoa se olha no espelho e decide como deseja ser vista.

Naquela desordem cabia o homem que eu conseguira me tornar, com seus excessos e suas tarefas adiadas, e a ideia de uma autoridade que prometesse corrigir o país começando por corrigir minha existência me fez recolher um pincel com um cuidado que ele, sozinho, talvez não justificasse.

Mais abaixo, uma lata amarela anunciava SORRISO, o famoso creme dental, em letras grandes, enquanto a caixa de losartana se inclinava contra os filmes entre eles “Lawrence da Arábia” e “As Branquelas”, e fiquei olhando para aquelas duas embalagens como quem encontra fotografias da mesma pessoa em idades diferentes, a primeira ainda convencida de que bastaria mostrar os dentes, a segunda já obrigada a negociar com o próprio coração.

Eu também estava cansado, também desejava uma solução que me permitisse dormir sem carregar o país para a cama, mas desconfiava de quem se oferecia para arrumar tudo sem demonstrar amor por nada do que encontrava, sobretudo pelos que viviam amontoados nas partes menos visíveis da casa.

A bagunça era minha, e reconhecê-la me impedia de falar do Brasil como se eu morasse do lado de fora, embora isso não tornasse equivalentes todas as maneiras de cuidar dele, assim como minha dificuldade de organizar a estante não me obrigava a entregar os livros a quem faria uma fogueira.

Comecei pela caneca que sustentava parte dos papéis, segurando a pilha com uma mão enquanto a retirava com a outra, e depois precisei abrir uma pasta e ler coisas que eu preferia apenas mudar de posição, de modo que a arrumação ficou mais lenta assim que deixou de ser uma ideia bonita.

A noite me encontrou com parte da bagunça sobre a cama, sem nenhuma aparência de vitória, e por um instante achei que teria sido melhor não começar, pois agora precisava resolver alguma coisa antes de dormir, trabalho que o entusiasmo inicial não previra e que ninguém poderia concluir apenas por ter anunciado que o concluiria.

Separei o documento para votar em Lula e o deixei num pedaço da cômoda que finalmente aparecera, ao lado do livro que eu retirara debaixo dos outros, pensando naquele menino a quem faltara escola e no país que ainda precisava deixar de tratar essa falta como destino, enquanto a caixa de sapatos permanecia no chão, à espera de que eu descobrisse por que lhe concedera tanto espaço.

Antes de apagar a luz, abri outra vez o livro e li algumas linhas, sem utilidade imediata, sem obrigação, apenas porque podia, e era esse poder tão quieto, exercido por um homem sozinho em seu quarto, que eu queria ver ao alcance de qualquer menino brasileiro.

Fabrício Correia é escritor, compositor, jornalista e professor universitário. Integra a Associação Nacional dos Editores de Revistas e a União Brasileira de Escritores. É presidente da Academia Josense de Letras

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