Conta-se que, num reino onde todos falavam ao mesmo tempo e quase ninguém escutava, vivia um deputado que tinha medo de livros, embora jamais admitisse semelhante fraqueza, pois aprendera que homens poderosos deveriam temer apenas inimigos, conspirações e derrotas, nunca um objeto feito de papel, tinta e silêncio.
O deputado servia com devoção a uma família que também não demonstrava grande intimidade com as estantes e possuía um curioso talento para governar as palavras, começando suas explicações, copiadas do patriarca, com um solene “no tocante”, terminando quase tudo com um definitivo “tá okay” e deixando entre uma expressão e outra frases curtas o bastante para atravessar o reino em cortes de Instagram, onde a indignação corria mais depressa que o pensamento, o insulto chegava antes da explicação e uma mentira simples muitas vezes alcançava a praça enquanto a verdade ainda procurava os sapatos.
O parlamentar aprendera com aqueles tempos que não precisava conhecer profundamente uma coisa para combatê-la, porque bastava escolher um inimigo, apontar-lhe o dedo diante de uma câmera e entregar o restante aos habitantes das redes, que fariam a acusação viajar de tela em tela até ninguém mais recordar onde começara, razão pela qual conhecia muitos escritores sem jamais tê-los lido e sabia perfeitamente quais obras deveriam desaparecer das escolas sem nunca ter chegado ao fim de nenhuma delas.
Sobre a mesa de seu gabinete mantinha uma Bíblia enorme, de capa bonita e letras douradas, cuidadosamente posicionada para aparecer nas fotografias, embora também não a tivesse lido inteira, porque naquele reino certos livros serviam menos para serem abertos do que para confirmar, fechados, aquilo que seus donos desejavam parecer.
Certo dia, depois de defender no Palácio das Leis a proibição de várias obras que desconhecia, voltou à sua cadeira e encontrou um pequeno volume de capa branca, sem título, autor, desenho ou qualquer sinal que lhe permitisse odiá-lo antecipadamente, circunstância que o deixou bastante desconfiado, pois estava acostumado a decidir se uma coisa era boa ou má antes mesmo de conhecê-la.
Abriu a primeira página e encontrou uma única frase: “Este livro fala de você”.
O deputado riu, mas a curiosidade, que às vezes entra numa casa pela mesma fresta usada pelo medo, convenceu-o a continuar, e logo apareceu diante dele um menino que esperava o pai voltar do trabalho enquanto escondia o medo do escuro de sua casa sem energia elétrica, fazendo-o reconhecer a própria infância, depois surgiu uma mãe que dizia não sentir fome para que o filho pudesse jantar, e ele se lembrou de uma mulher que fizera exatamente aquilo durante anos sem jamais contar que seu prato vazio também era uma forma de amor.
Virou outras páginas e encontrou gente que jamais teria convidado para seus comícios, uma mulher que amava outra mulher, um rapaz espancado por ser diferente, um trabalhador negro parado no caminho de casa, uma professora perseguida pelo que ensinava, um estrangeiro tentando compreender palavras novas, um preso arrependido, um ateu generoso, um religioso cruel, um conservador bondoso, um revolucionário covarde e até um santo incapaz de responder a todas as perguntas que carregava.
Aquilo o enfureceu, porque as criaturas daquele volume não obedeciam às regras de seu reino, fazendo com que pessoas consideradas más praticassem bondades, homens admirados cometessem crueldades e inimigos sentissem saudade, medo, fome, amor e vergonha exatamente como ele, de maneira que, pela primeira vez, suas gavetas ficaram pequenas demais para guardar o mundo.
Fechou o livro, abriu o telefone, procurou seus vídeos preferidos, ouviu algumas pessoas gritarem certezas e tentou sentir novamente o conforto de antes, mas as personagens continuavam caminhando dentro de sua cabeça, e naquela noite descobriu uma propriedade muito desagradável das boas histórias: algumas começam quando abrimos a primeira página e se recusam a terminar quando fechamos a última.
Depois daquela madrugada procurou outros volumes, primeiro escondido, como quem comete um pecado, começando justamente pelos proibidos, pois desconfiara de que, quando alguém poderoso se esforça demais para impedir a leitura de alguma coisa, talvez esteja involuntariamente oferecendo a melhor propaganda possível para ela.
Leu histórias, poemas, memórias e relatos de tempos antigos, descobrindo que os heróis também carregavam manchas, os derrotados possuíam outras versões, os vencedores nem sempre diziam toda a verdade e um país não diminuía quando alguém apontava suas feridas, mas podia adoecer gravemente quando todos eram obrigados a fingir que elas não estavam ali.
Os assessores perceberam que algo estranho acontecia quando o deputado passou a demorar antes de responder, porém o verdadeiro escândalo surgiu no dia em que alguém lhe fez uma pergunta diante das câmeras e ele respondeu simplesmente “não sei”, expressão tão rara entre os poderosos daquele reino que alguns chegaram a suspeitar de doença.
Pouco tempo depois retirou sua proposta de proibir livros, e antigos correligionários correram para perguntar se havia se tornado traidor, vendido ou inimigo do reino, mas ele permaneceu alguns instantes calado antes de responder que não havia mudado de exército, apenas aprendera a ler.
Foi então abandonado por muitos seguidores, virou personagem dos mesmos cortes que antes o haviam celebrado e ouviu um antigo aliado declarar que os livros tinham destruído aquele homem, frase que guardou com carinho porque continha, sem querer, alguma verdade, pois as páginas realmente haviam encerrado nele a confortável certeza de que toda questão possuía somente duas respostas e de que uma delas seria sempre a sua.
Os anos passaram, o deputado, que depois de tornar-se leitor não foi reeleito e deixou o Palácio das Leis, até que certa tarde voltou ao lugar como visitante e encontrou um jovem parlamentar discursando contra professores, artistas, minorias e livros, reconhecendo imediatamente naquela voz a mesma raiva que carregara na juventude, aquela velha valentia construída sobre o receio de encontrar alguma coisa no mundo que não coubesse dentro das próprias certezas.
Esperou o discurso terminar, aproximou-se da cadeira do rapaz e deixou sobre ela um pequeno volume de capa branca, escrevendo na primeira página apenas “Este livro fala de você”, depois caminhou em direção à saída sem esperar qualquer transformação, porque aprendera que ninguém pode obrigar outra pessoa a pensar, assim como ninguém consegue ordenar a uma semente que se torne árvore.
Quando chegou à porta, voltou os olhos uma última vez e viu o jovem examinando a capa, procurando alguma coisa que pudesse condenar sem esforço e, como nada encontrou, abrindo finalmente a primeira página.
Ele sorriu e foi embora, enquanto no grande salão do reino, entre discursos, bandeiras, câmeras e certezas, um homem começava silenciosamente a ler.
E dizem que, desde aquele dia, sempre que algum poderoso daquele lugar tentava proibir uma história, aparecia misteriosamente um livro branco sobre sua cadeira, embora ninguém jamais descobrisse quem o deixava ali, e talvez fosse melhor assim, porque toda fábula precisa guardar pelo menos um segredo para continuar sendo contada.
Moral da história: quem teme uma pergunta costuma começar proibindo a resposta, mas às vezes basta uma página para que a dúvida floresça.
Fabrício Correia é escritor, professor universitário. Autor de diversos livros, integra a União Brasileira de Escritores e preside a Academia Joseense de Letras.



