Foto: Reproducao

Triste, triste … triste?: o que resta de nós

Acompanho a trajetória de Thalles Cabral muito de perto, talvez inicialmente fascinado por uma beleza que dificilmente permite indiferença, mas desde cedo consciente de que, por trás daquela aparência extraordinariamente atraente, existia um talento raro, desses que não se explicam pela juventude, pelo carisma ou pela generosidade da natureza, mas por uma inteligência artística capaz de compreender as regiões menos evidentes da experiência humana, percepção que encontrei confirmada, com uma maturidade particularmente impressionante, em Triste! Triste… Triste?.

Escrito e dirigido por Nicolas Ahnert, a partir do romance “Triste não é ao certo a palavra”, de Gabriel Abreu, o espetáculo parte de uma sentença devastadora, os trinta dias de vida que restam à mãe, para investigar a precariedade das relações familiares e a desconcertante descoberta de que amar profundamente alguém não significa necessariamente conhecê-lo, recusando a sentimentalidade previsível de tantas narrativas sobre a morte para reconhecer que a proximidade do fim não absolve ressentimentos nem transforma automaticamente o sofrimento em virtude.

Thalles compreende essa contradição com uma precisão que distingue os intérpretes verdadeiramente importantes, alternando ironia, impaciência, humor e vulnerabilidade sem solicitar a indulgência do público, permitindo que a personagem conserve suas imperfeições e revelando uma qualidade cada vez mais rara no teatro contemporâneo, a capacidade de produzir intensidade sem recorrer à exibição permanente das emoções.

Sua beleza, que tantas vezes poderia constituir uma distração para o espectador, torna-se aqui quase secundária diante da inteligência com que organiza os silêncios, as hesitações e as mudanças de registro, como se aquele rosto tão admirável encontrasse finalmente sua expressão mais interessante naquilo que não consegue revelar inteiramente.

Ahnert constrói uma dramaturgia na qual a memória deixa de oferecer segurança e passa a produzir perguntas, enquanto a mãe, progressivamente libertada da identidade que o filho lhe atribuiu, recupera sua condição de mulher cuja existência comportou desejos, escolhas e experiências anteriores à maternidade, numa investigação que encontra ecos na tradição de Tchékhov pela convivência entre o ridículo, o sofrimento e a incapacidade humana de compreender plenamente aqueles com quem dividimos a vida.

Existe, entretanto, uma crueldade ainda mais profunda nessa despedida, porque perder a mãe significa perder também uma testemunha insubstituível da própria história, alguém que conservava lembranças de quem fomos antes que pudéssemos recordar, e Cabral alcança justamente nessa percepção uma dimensão interpretativa comovente, fazendo da fragilidade não um espetáculo de lágrimas, mas uma experiência de reconhecimento.

Saí do teatro com a convicção de que acompanhar um artista durante tantos anos também significa aprender a abandonar as primeiras impressões que tivemos dele, porque, se a beleza de Thalles Cabral despertou minha atenção, foi seu talento que a conservou, e sua interpretação neste espetáculo oferece uma razão ainda mais definitiva para continuar acompanhando seu trabalho.

A beleza pode fazer alguém permanecer diante de nossos olhos, mas somente um grande artista consegue permanecer dentro de nós depois que as luzes se apagam.

Fabrício Correia, é escritor, jornalista e crítico de cinema e teatro. Integra a Academia Brasileira de Cinema e a União Brasileira de Escritores.

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