Por: Fabrício Correia
O senador Keeley, interpretado por Gene Hackman, provavelmente ficaria horrorizado se alguém lhe dissesse que pertence ao mesmo universo teatral de uma drag queen. Entretanto, é precisamente essa a descoberta mais divertida de “A Gaiola das Loucas”, comédia dirigida por Mike Nichols em 1996. Todos representam alguma coisa, inclusive aqueles que se consideram modelos de autenticidade. A diferença é que os artistas conhecem seus figurinos, enquanto os políticos confundem os próprios disfarces com princípios morais.
Na versão francesa de Édouard Molinaro, de 1978, Michel Serrault e Ugo Tognazzi conduziam a comédia pela exuberância de seus personagens. Nichols, beneficiado pelo roteiro de Elaine May, conserva a estrutura da peça de Jean Poiret, mas desloca o interesse para as contradições de uma sociedade que transforma convenções em virtudes. Armand (Robin Williams) administra uma boate de Miami e vive com Albert (Nathan Lane), sua principal atração artística. Juntos criaram Val (Dan Futterman), que pretende casar-se com a filha de Keeley, senador republicano ligado a uma organização conservadora. O rapaz exige que os pais escondam sua relação durante a visita dos futuros sogros. Albert, responsável por boa parte de sua educação, torna-se inconveniente justamente quando deveria receber algum reconhecimento.
Nichols encontra nessa ingratidão uma crueldade que a velocidade das piadas quase consegue dissimular. Val não parece compreender a violência de seu pedido. Deseja apenas evitar dificuldades, como se fosse perfeitamente razoável solicitar a alguém que desapareça de sua própria casa para não perturbar os preconceitos de um visitante. A comédia ganha outra dimensão quando descobrimos que Keeley também enfrenta um escândalo político e necessita desesperadamente de uma família apresentável. A respeitabilidade passa a ser um empreendimento coletivo de falsificações.
Robin Williams, tantas vezes entregue à improvisação desenfreada, interpreta Armand com uma contenção surpreendente. Nathan Lane dispõe de maior liberdade para os excessos, mas seria um equívoco reduzir Albert a uma coleção de trejeitos. Sua comicidade nasce também da insegurança de quem teme perder o lugar conquistado numa família. Quando tenta comportar-se como um homem convencional, a imitação de John Wayne expõe o absurdo de uma masculinidade aprendida por repetição. Gene Hackman, extraordinário na seriedade com que interpreta o senador, completa a inversão: quanto mais respeitável pretende parecer, mais grotesco se torna.
Dianne Wiest, como a mulher de Keeley, percebe mais do que admite, enquanto Hank Azaria transforma o empregado Agador numa figura de comicidade irresistível. Nichols aproveita esses personagens para organizar uma sucessão de equívocos que culmina num jantar exemplar pela precisão das entradas, interrupções e constrangimentos. Nem tudo funciona igualmente bem. Certos exageros denunciam a origem teatral, e o filme evita qualquer demonstração mais franca de intimidade entre Armand e Albert, como se ainda precisasse tranquilizar o público que pretende provocar.
Essa prudência não anula sua inteligência, embora revele os limites de uma Hollywood disposta a acolher a diferença desde que ela não perturbe excessivamente os costumes. A indicação ao Oscar de direção de arte reconheceu o esplendor visual de uma produção cuja verdadeira graça está menos nos cenários do que nas pessoas obrigadas a habitá-los.
No fim, a maior ironia de “A Gaiola das Loucas” pertence ao filho. Educado numa casa onde encontrou amor e proteção, Val precisa descobrir que a vergonha não estava na família que possuía, mas na família que julgava necessário inventar. Nichols não pretende abolir os preconceitos com uma comédia. Consegue algo talvez mais difícil: fazer com que seus defensores pareçam tão ridículos quanto realmente podem ser, sem precisar exagerar um único de seus princípios.



