Foto: Divulgação

Carlos Rennó: a palavra que canta, protesta e preserva

Carlos Rennó chega aos 70 anos como uma das inteligências mais singulares da canção brasileira. Chamá-lo apenas de letrista reduz o alcance de uma obra construída entre poesia, música, crítica social, pesquisa e consciência ambiental. Rennó escreve dentro da melodia, mas também contra o silêncio. Suas palavras procuram beleza sem abandonar o conflito de seu tempo.

Desde os primeiros trabalhos com Tetê Espíndola, a natureza aparece não como cenário decorativo, mas como presença viva. Canções como “Na Chapada”, “Visão da Terra”, “Nós” e “Cururu” revelam uma escrita ligada à paisagem, aos animais, às águas e às formas brasileiras de pertencimento. A aproximação artística entre Rennó e Tetê nasceu também desse interesse comum pelas questões ecológicas. 

Em “Escrito nas Estrelas”, parceria com Arnaldo Black consagrada na voz de Tetê Espíndola, o universo torna-se linguagem amorosa. Céu, destino e desejo encontram-se numa canção que venceu o Festival dos Festivais de 1985 e atravessou gerações. O êxito popular não eliminou sua delicadeza poética. Pelo contrário: provou que elaboração e comunicação podem ocupar o mesmo verso. 

O compromisso ambiental adquire força política em “Reis do Agronegócio”, interpretada por Chico César. A canção confronta a concentração de terras, o uso de venenos, a devastação e a conversão da vida em mercadoria. Rennó não idealiza a paisagem brasileira: mostra a disputa travada sobre ela. A floresta, o alimento e o campo deixam de ser abstrações e passam a representar escolhas econômicas, humanas e morais. 

Essa dimensão crítica nunca transforma sua escrita em palavra de ordem previsível. O trabalho de Rennó nasce do domínio do idioma. Ele explora rimas internas, repetições, aliterações, duplos sentidos e deslocamentos sonoros. Cada sílaba precisa responder à música e, ao mesmo tempo, conservar pensamento próprio. O verso canta antes mesmo de receber a voz.

Sua produção também alcança a passagem do tempo. Em “Lema”, gravada por Ney Matogrosso, envelhecer não aparece como perda, mas como renovação, permanência do desejo e capacidade de maravilhamento diante do mar, do céu e da vida. A canção adquire peso especial aos 70 anos do autor: não como despedida, mas como afirmação de continuidade. 

Rennó dedicou-se ainda às versões, à organização de livros e ao estudo de compositores fundamentais. Em cada frente, percebe-se o mesmo respeito pela palavra. Ele não trata a canção como objeto passageiro. Reconhece nela um arquivo sentimental e político do país.

Celebrar Carlos Rennó significa reverenciar um homem que fez da língua portuguesa sua forma de cuidado. Cuidado com a música, com a memória, com a natureza e com o Brasil. Sua obra recorda que destruir uma floresta e empobrecer uma palavra partem do mesmo gesto: a incapacidade de reconhecer valor naquilo que levou tempo para nascer.

Aos 70 anos, Carlos Rennó permanece como árvore de raízes profundas e copa aberta. Seus versos oferecem sombra, inquietação e horizonte. E o país, tantas vezes descuidado de seus melhores criadores, deve pronunciar seu nome com gratidão.

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