Por um lado, há a história. Por outro, há a televisão. Quando os dois se encontram de forma honesta, nasce algo que chamamos, com alguma reverência, de telenovela. E “Vale Tudo”, desde 1988, sempre foi mais do que uma novela: foi uma pergunta nacional, uma provocação popular, um espelho quebrado. Ao voltar em 2025 em forma de remake, sob a pena de Manuela Dias, o que se viu não foi exatamente um espelho, mas uma tentativa. Corajosa, elegante, mas ainda tateante. A estreia foi densa, caprichada, atual, mas não irretocável. E essa talvez seja sua maior virtude: querer ser grande sem fingir perfeição.
A primeira sequência, em Foz do Iguaçu, já delimita as intenções: o Brasil não é mais apenas o Rio de Janeiro ou São Paulo e de vez em quando um sertão ou Pantanal. É o Brasil de fronteiras, de travessias, de mães que trabalham duro e filhas que querem virar celebridade. Maria de Fátima surge em desassossego, e Raquel, entre roteiros turísticos, guarda um coração cansado. Aqui, a direção de Paulo Silvestrini opta por uma fotografia que alterna o tom onírico das paisagens naturais com a aspereza da vida cotidiana. Essa justaposição visual é feliz e lança a semente do que está por vir: uma mulher sendo empurrada ao abismo e outra saltando por ambição. Não é metáfora sutil. Mas é eficaz.
Taís Araújo assume a Raquel que já foi de Regina Duarte com precisão técnica e interpretação segura. Ela não homenageia: reinventa. Sua Raquel não é uma sofredora passiva. Ela tem altivez mesmo antes da tragédia. Quando descobre a traição da filha, há menos desespero do que dor surda, e é nesse silêncio que Taís cresce. Seu olhar, ao ouvir que precisa deixar a casa, é um dos grandes momentos do capítulo. Não há lágrimas fáceis. Há dignidade ferida. A escolha por uma atriz negra, aliás, dá nova espessura à personagem. Em 1988, Raquel lutava contra o sistema. Em 2025, ela luta contra um país que ainda mede valor pela aparência, pela origem, pela cor. Isso não está no texto, mas está na imagem. E imagem, numa novela, também fala.
Maria de Fátima, agora vivida por Bella Campos, é mais instagramável do que maquiavélica. Sua atuação ainda oscila entre a tentativa de humanizar e o risco de esvaziar a vilania clássica. Glória Pires, na versão original, fazia da ambição um estudo de personagem. Bella parece presa à estética da juventude cruel de internet, mais próxima de uma influenciadora mimada do que de uma mulher disposta a vender a mãe. Ainda é cedo para julgar, mas a personagem exige mais cinismo e menos pose. O mesmo vale para César, interpretado por Cauã Reymond, que surge como galã funcional, mas sem os conflitos que o personagem carrega no original. Tudo nele ainda é muito bonito e pouco ambíguo.
O roteiro de Manuela Dias tem méritos: atualiza sem destruir. Ela compreende que o Brasil de hoje não é o de ontem, mas que a pergunta segue válida. Vale a pena ser honesto? O remake parece propor uma nova versão: vale a pena tentar? Em tempos de ascensão do cinismo e do marketing como valor moral, a nova “Vale Tudo” mira num país que trocou a ética pelo engajamento. Maria de Fátima quer likes, não respeito. Raquel quer dignidade, mas vai descobrir que isso, hoje, custa caro.
A novela acerta ao deslocar a ambientação inicial para longe dos cartões-postais cariocas. Foz do Iguaçu não é apenas um cenário turístico: é símbolo. É divisa, é limite, é um Brasil olhando para fora. O Brasil do contrabando, das promessas de ascensão fácil, da fronteira como metáfora da moral. A decisão de vender a casa do avô sem avisar a mãe carrega, no texto e na imagem, um gesto brutal. É um corte não só emocional, mas simbólico. A filha rompe com a origem, com o nome, com a ética. Ela quer o mundo. O problema é que ela não sabe o preço.
Tecnicamente, a novela é um espetáculo. A trilha sonora evita os obviedades. A direção opta por planos longos, elegantes, e não subestima o espectador. Mas, por vezes, erra a mão. As sequências panorâmicas das Cataratas, por exemplo, mais parecem um vídeo institucional do Ministério do Turismo do que parte de uma dramaturgia. Faltou sujeira, poeira, cheiro de povo. Um remake que quer ser Brasil precisa fugir do cartão-postal e abraçar o Brasil das vielas, das calçadas rachadas, das buzinas. A estreia foi cheirosa demais.
Renato Góes como Ivan tem um arco promissor. Seu personagem, trabalhador ético e cercado de ameaças corporativas, talvez seja o elo entre as duas pontas da novela. Ele não é nem Raquel, nem Maria de Fátima. Ele é o brasileiro comum, que ainda acredita que trabalhar vale a pena, mesmo quando tudo desaba. O grupo Roitman, mencionado mas ainda ausente, surge como uma sombra poderosa — e é nesse suspense que a novela acerta. Ao não revelar sua vilã no primeiro capítulo, ela resgata a boa e velha arte de esperar.
Há um Brasil machucado ali. E há uma dramaturgia disposta a dialogar com ele. Não se trata de nostalgia. A nova “Vale Tudo” não parece ser escrita para comparação. Ela é um novo organismo, que respira em outro tempo. Ainda que precise encontrar melhor equilíbrio entre tradição e reinvenção, entre espetáculo e verdade, ela começou com os pés no chão e os olhos no alto.
E isso, para um país que tanto se desacostumou com novelas inteligentes, já é um sopro de esperança.
Avaliação: 8,5/10 — estreia promissora, mas com pontos a refinar.
Expectativa: altíssima para a chegada de Odete.
Fabrício Correia é escritor, crítico de cinema, jornalista, historiador e professor universitário. Presidiu a Academia Joseense de Letras e integra a União Brasileira de Escritores – UBE e a Academia Brasileira de Cinema. É CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias, “Conversa de Bastidores” e o portal de entretenimento “Viva Noite”. Apresenta o programa “Vale Night” na TH+ SBT. É noveleiro de plantão. Fã de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu e Miguel Falabella.