Foto: Divulgação

Crítica: “ Luz da Lua”: o renascer filmado em estado de graça

O curta de Thiago Campos, “Luz da Lua” não nasce de uma ideia. Nasce de uma volta. Há obras que começam na cabeça; esta começa no corpo, no ponto exato em que a vida, depois de uma grande adversidade, deixa de ser pressuposto e volta a ser acontecimento. E quando alguém retorna assim, como quem reaprende o ar; o olhar muda de natureza: fica mais lento, atento, grato e, ao mesmo tempo, mais vulnerável. É dessa vulnerabilidade que vem a beleza do filme: não como ornamento, mas como necessidade íntima de permanecer no mundo sem banalizá-lo.

O passeio pela exposição de Van Gogh, que estrutura a experiência do curta, é travessia. O espaço expositivo vira uma espécie de santuário laico onde as cores funcionam como um campo magnético capaz de reorganizar a respiração de quem observa. Thiago filma como quem procura um caminho de volta para si mesmo, mas sem fechar o gesto no confessionário: a câmera não busca aplauso, pede silêncio. Não quer convencer ninguém; mas nos colocar dentro de um estado; esse lugar raro em que a arte deixa de ser objeto e passa a ser atmosfera.

E é nesse estado que a música de Claude Debussy, ao piano, transborda a condição de “trilha” e se transforma em método de percepção. “Clair de Lune” regula o curta por dentro. A melodia cria intervalos, suspende o tempo, instala uma delicadeza que não é de superfície, e sim moral,  como se o filme dissesse, sem dizer: olhe devagar, porque o mundo só revela sua verdade quando você para de atravessá-lo com pressa. A música vira o pulso do curta, uma espécie de coração externo que ensina a montagem a respirar, a recuar, a voltar, a insistir com suavidade.

Van Gogh, aqui, é uma presença que conversa com a experiência de renascer. Porque há uma afinidade profunda entre o pintor e o estado de quem voltou de uma ameaça, o caso de Thiago: ambos conhecem o limite, ambos sabem que a beleza é tensão transfigurada. O curta capta isso quando trata a pintura como matéria viva. A câmera se aproxima das superfícies como se procurasse não a imagem, mas o tremor. O que vemos: é a prova física de que alguém um dia sentiu demais e, mesmo assim, decidiu transformar esse excesso em luz. E Campos, caminhando por esse território, parece reconhecer algo de si nessa insistência: a arte como modo de atravessar o real sem desabar.

Lembrei-me de  Terrence Malick como parentesco espiritual. A mesma confiança no invisível, a mesma fé de que o cinema pode filmar o que não tem nome: a vibração antes da frase, a emoção antes do enredo, a revelação antes do comentário. A câmera de Thiago não “conquista” o espaço, flutua com respeito, como se toda imagem pudesse quebrar se fosse tocada com brutalidade. Há momentos em que o curta parece mais interessado em deixar a luz agir do que em organizar uma narrativa; e é exatamente aí que ele se torna mais cinematográfico. Porque a narrativa, neste caso, não é uma sequência de fatos: é uma mudança de temperatura interior.

O que impressiona, ainda mais considerando a idade de Thiago, 18 anos, é a maturidade de não tentar “provar” nada. O filme não se exibe. “Luz da Lua”, no final de seus cinco minutos, nos deixa com algo que os melhores filmes deixam: um estado. Saímos com a sensação de ter caminhado junto por uma galeria e por dentro de uma consciência e de que, durante alguns minutos, a vida foi devolvida ao seu tamanho real, que é ao mesmo tempo frágil e imensa. Não é um curta sobre Van Gogh. Não é um curta sobre Debussy. Não é um exercício “à maneira de Malick”. É um curta sobre o instante em que um jovem cineasta descobre com a seriedade de quem renasceu que a arte pode ser o lugar mais digno para agradecer.

Fabício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Membro da Academia Brasileira de Cinema e da União Brasileira de Escritores.

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