DETENTOS — A prisão começa antes das grades

Existe uma diferença filosófica entre ser violento e cometer um ato de violência. É nessa fratura que “Detentos”, texto e direção de Francis Mayer, encontra uma de suas questões mais perturbadoras. A cela não reúne somente homens que fizeram do crime uma linguagem; recebe também aquele cuja existência foi interrompida pelo imprevisível e que, depois de atravessar a fronteira de um homicídio, precisa descobrir quem será no mundo que lhe restou.

O teatro brasileiro conhece esse território. “Barrela”, de Plínio Marcos, permanece como ancestral inevitável de qualquer dramaturgia que coloque homens confinados diante de seus códigos, desejos, humilhações e disputas. Mas Francis Mayer não repete Plínio. Interessa-lhe outra camada do cárcere: a transformação da identidade quando liberdade, privacidade e até a relação com o próprio corpo deixam de pertencer inteiramente ao indivíduo.

A cela de “Detentos” funciona como uma sociedade reduzida ao osso. Poder, medo, sexo, amizade, desejo e violência reorganizam-se segundo regras próprias. Nesse ambiente, a homossexualidade assume particular importância, não como adereço provocativo, mas como fissura numa masculinidade construída sob permanente vigilância. Entre homens obrigados a provar força diante de outros homens, desejo e poder tornam-se perigosamente próximos. O corpo pode significar afeto, domínio, proteção, moeda, vulnerabilidade. Mayer toca justamente no ponto em que o cárcere revela a fragilidade das categorias que o mundo exterior julgava definitivas.

É nesse universo que a entrada do personagem vivido por Vinícius Moyzes altera a temperatura da montagem. Ele é o novo detento, um jovem de classe média que chega à cela depois de cometer um homicídio, mas não carrega a violência como fundamento de sua personalidade. O crime representa uma ruptura. A imprevisibilidade de um acontecimento transformou-o em assassino antes que ele próprio pudesse compreender-se como tal.

Moyzes trabalha muito bem essa condição de estrangeiro. Seu personagem precisa aprender rapidamente que sobreviver significa decifrar uma gramática que desconhece: onde olhar, quando falar, de quem se aproximar, diante de quem recuar. Não se trata apenas de existir naquele espaço, mas de reexistir. O homem anterior permanece dentro dele, porém já não basta para mantê-lo vivo. Essa talvez seja a pergunta mais inquietante proposta pela atuação: quanto de nós permanece quando as circunstâncias nos obrigam a ser outro?

Enquanto outros personagens já conhecem a lógica interna da cela, ele precisa descobri-la diante do espectador. Por isso funciona também como nosso ponto de entrada naquele universo. Vemos através dele o instante em que um homem percebe que sua biografia anterior perdeu valor e que sobreviver exigirá uma identidade ainda desconhecida.

Francis Mayer compreende também que sexualidade, naquele espaço, não pode ser separada das estruturas de poder. O desejo homossexual rompe a superfície viril dos personagens e expõe algo anterior ao crime: a necessidade humana de tocar e ser tocado, desejar e ser desejado, dominar e também encontrar algum reconhecimento no outro.

Foucault pensou a prisão como instrumento de disciplina dos corpos. Sartre encontrou no olhar alheio uma forma de aprisionamento. “Detentos” aproxima involuntariamente essas duas ideias: aqueles homens estão encarcerados pelo Estado e, simultaneamente, pelo olhar incessante dos companheiros de cela. A prisão mais profunda de Francis Mayer talvez seja justamente essa.

“Detentos” não pergunta apenas quem merece estar atrás das grades. Pergunta quem um homem se torna depois que elas se fecham.

SERVIÇO:

DETENTOS
Texto e direção: Francis Mayer
Elenco: Léo San, Vinícius Moyzes, Cairo Góis, Fernando Peres, Diego Fonseca e Lucas Figueredo
Figurinos e trilha sonora: Francis Mayer
Teatro Paiol Cultural
Rua Amaral Gurgel, 164 — São Paulo/SP

Sábados e domingos

Até 30/08.

 

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