Alguns filmes não envelhecem porque “adivinharam” o futuro, e sim porque fotografaram um nervo exposto do seu tempo, e nervos não seguem calendários específicos. “Grand Canyon – Ansiedade de uma Geração” (1991), de Lawrence Kasdan, visto hoje, vinte e cinco anos depois (ou mais, dependendo do seu relógio afetivo), segue vivo porque continua falando de uma coisa simples e brutal: o modo como uma grande cidade nos educa para a desconfiança, e como um encontro inesperado pode desmontar, em minutos, as certezas que a gente levou décadas para empilhar.
Kasdan começa o filme como quem acende um fósforo perto de um vazamento: um advogado bem-sucedido, Mack (Kevin Kline), sai da rota, o carro morre no lugar errado e a noite, que para alguns é cenário para outros é sentença. A tensão que nasce desse incidente não é apenas a do crime; é a do mapa invisível que separa as pessoas dentro da mesma cidade, como se Los Angeles fosse um arquipélago de ilhas que fingem ser continente. Quando Simon (Danny Glover), um motorista de guincho, intervém e salva Mack, o filme decide que a história não será sobre o assalto, mas sobre o que acontece depois: o que um gesto de humanidade faz com quem já tinha desistido de acreditar nela.
A partir daí, “Grand Canyon” funciona como um mosaico: Kasdan não acompanha um único protagonista; ele acompanha a circulação do medo, do desejo e da culpa entre personagens que se esbarram como carros num trânsito moral. O casamento de Mack com Claire (Mary McDonnell) começa a mostrar rachaduras não por falta de amor, mas por excesso de vida automática, essa vida que parece organizada por fora, mas por dentro é um quarto sem janela. Claire, aliás, encontra um bebê abandonado num dos momentos mais fortes do filme: não pela “situação”, mas pela pergunta silenciosa que ela carrega no colo, o que a gente faz com aquilo que o mundo deixa cair no chão? E, numa linha paralela, surge Davis (Steve Martin), um produtor de cinema especializado em violência, um homem acostumado a transformar dor em produto, até o dia em que a dor atravessa a tela e o alcança no corpo; é aí que Steve Martin entrega uma atuação preciosa, porque recusa a caricatura e expõe um sujeito ridículo, cínico, frágil e assustado com a própria vida.
O grande mérito do filme está na maneira como Kasdan filma a cidade como um organismo emocional. Los Angeles aparece com seus helicópteros, seus vazios, suas cercas, seus jardins “perfeitos” e suas ruas onde o perigo não precisa se materializar para existir; ele já está no modo como as pessoas olham, aceleram, trancam, evitam, desviam. Há cenas em que nada acontece e, mesmo assim, tudo parece prestes a acontecer. Esse é o suspense real de “Grand Canyon”: não o da perseguição, mas o da antecipação, o medo como hábito, a alma sempre com o cinto afivelado.
No elenco, Danny Glover é o centro de gravidade moral: Simon não é santo nem cartaz de boas intenções; ele é um homem que conhece o custo do mundo e, ainda assim, escolhe agir como se a cidade pudesse ser um pouco melhor do que ela é. Kevin Kline, por sua vez, faz de Mack um retrato convincente do sujeito que confunde conforto com segurança, e segurança com sentido — até perceber que nenhuma dessas coisas compra paz. Mary McDonnell dá a Claire um tipo de sensibilidade que não é “doçura”; é lucidez, aquela lucidez que dói porque enxerga. E Alfre Woodard, sempre elegante e afiada, traz a inteligência emocional de quem não aceita ser reduzida a símbolo: sua presença impede o filme de virar um sermão de classe média sobre “bons sentimentos”, porque ela devolve complexidade ao que poderia ser só ideia.
Mas é importante dizer com clareza: “Grand Canyon” tem limites. Em alguns momentos, Kasdan se aproxima demais de uma vontade de “costurar” o mundo com linhas bonitas, como se bastasse aproximar pessoas para dissolver tensões que são históricas, estruturais, profundas. O filme quer acreditar no poder dos encontros e isso é bonito, mas às vezes parece acreditar demais, como se a conciliação estivesse ao alcance de uma conversa bem conduzida. Ainda assim, o que poderia virar ingenuidade se transforma em algo mais interessante quando visto hoje: um retrato honesto do desejo de conciliação de uma época, com toda a sua generosidade e com toda a sua insuficiência.
E então vem o final: o cânion como ideia e como imagem. O Grand Canyon entra como contraste de escala: depois de tanto asfalto, tanto ruído, tanta sensação de ameaça, a natureza surge como algo que não negocia, não acelera, não se explica. Não é “lição”; é perspectiva. Kasdan sugere, sem precisar gritar, que a cidade faz a gente se achar o centro de tudo — e que existe um alívio quase espiritual em lembrar que o mundo é maior do que nossa pressa, nossa vaidade, nossa paranoia.
Rever “Grand Canyon” hoje é reconhecer que o verdadeiro tema do filme não é o acaso: é o tempo. Tempo que endurece, tempo que anestesia, tempo que faz a gente aceitar o inaceitável como rotina — até que um acontecimento fora do script rasga o tecido e obriga a vida a reaprender a sentir. Kasdan filma esse recomeço íntimo com uma delicadeza rara: não é a transformação espetacular, de cinema “motivacional”; é a transformação miúda, difícil, às vezes contraditória, que começa quando alguém percebe que está vivo demais para viver no piloto automático.
No fim, “Grand Canyon” permanece como um filme adulto no sentido mais sério da palavra: ele não oferece soluções fáceis, mas insiste numa pergunta que a cidade tenta calar todos os dias — o que ainda nos torna humanos quando o medo vira método? E talvez seja por isso que, mesmo com suas costuras aparentes, ele continua tocando: porque algumas histórias não passam com o tempo; elas apenas mudam de lugar dentro da gente.
Fabrício Correia é crítico de cinema. Foi o primeiro crítico do país a ter um blog sobre crítica cinematográfica na internet; “Estação Cinema”, lançado em 1994 pela Valley-BBS, em São José dos Campos.



