220 anos depois, Hans Christian Andersen continua escrevendo por nós.
Não digo isso como metáfora nem homenagem vazia. Digo como quem crê que certos autores não cessam de existir quando morrem. Eles passam a morar no sopro que damos ao virar as páginas. Habitantes silenciosos do que há de mais essencial: a palavra que acolhe a criança antes que o mundo a endureça.
Escrever para crianças, em tempos cínicos, é um ato revolucionário. Ser reconhecido por isso é, ao mesmo tempo, benção e contramão. E celebrar Andersen, neste abril de 2025, é reencontrar a primeira vocação da literatura: ser abrigo. Ser travessia. Ser espelho onde a dor ganha forma e a beleza, fôlego.
Andersen não escreveu para agradar crianças. Ele escreveu como quem precisava sobreviver. Sua biografia, marcada por orfandades e humilhações, é uma longa carta escrita ao menino que ele foi. Cada conto é um acerto de contas com o silêncio. “O Patinho Feio” não é apenas uma história sobre rejeição — é um retrato do próprio autor em carne viva. E é esse vínculo inegociável entre vida e obra que o torna eterno.
A infância, para ele, nunca foi um território a ser instruído. Foi sempre uma nação a ser escutada. E escutar a infância — com a devida reverência — é um gesto que poucos adultos dominam. Muitos falam sobre as crianças, poucos falam com elas. Andersen as levou a sério. Deu-lhes voz. E mais: permitiu que sofressem nas histórias, que fossem ambíguas, corajosas, falhas. Deu-lhes humanidade. Não há presente maior.
Hoje, quando me reconhecem como autor de livros infantis, sinto não orgulho, mas responsabilidade. Um livro para a infância não é menor que os grandes romances. Não é subliteratura. É origem. É onde tudo começa. A literatura para crianças é a fundação da sensibilidade. O espaço onde o simbólico se instala, onde a empatia se aprende sem ser ensinada, onde a imaginação se torna estrutura de mundo.
Cada vez que me sento para escrever uma história, carrego comigo a sombra protetora dos que vieram antes. Andersen é um deles. Talvez o mais alto. Mas não me curvo: caminho ao lado. Porque ele abriu veredas onde antes havia mata. Mostrou que a lágrima podia coexistir com o riso no mesmo parágrafo. Que a morte podia visitar o conto — não para assustar, mas para ensinar a respeitar o mistério.
Os contos de Andersen não foram feitos para dormir. Foram feitos para acordar. Acordar perguntas, angústias, compassos éticos. E a criança que lê esses contos desperta algo em si que nem todos os adultos conseguem nomear. Ler Andersen é aprender a demorar-se. A observar. A ser. E isso, num tempo onde tudo nos urge a correr, é quase subversivo.
Há quem ainda trate o autor infantil como uma espécie de escritor de segunda categoria. Como se sua pena fosse mais leve, menos grave. Ledo engano. Escrever para crianças é exigir-se mais. É buscar o essencial com palavras limpas. É construir imagens que sejam janelas, não muros. É saber que o leitor é alguém em processo de tornar-se — e, por isso mesmo, merece o melhor.
Em tempos de algoritmos, redes sociais, inteligência artificial e livros embalados para consumo rápido, cabe a nós — autores da infância — lutar pela permanência do poético. Não pelo adorno, mas pela alma. A literatura infantil não precisa de lições: precisa de vertigens. De encantamentos. De verdades delicadamente nuas.
O futuro da literatura, se ainda houver futuro, passará por mãos pequenas. Pelos olhos que hoje se espantam com um livro de figuras. Pela criança que, mesmo sem entender todas as palavras, sente o mundo que ali se anuncia. E é por isso que seguimos escrevendo. Porque há sempre alguém à espera da sua primeira história.
Andersen nos ensinou que a palavra certa, dita na hora certa, pode acompanhar uma vida inteira. Pode transformar o que parecia vergonha em beleza. O que era rejeição em voo. Por meio de seus livros — escreveu destinos. E os autores que hoje ousam falar com a infância, sem descer a ela, mas caminhando ao lado, sabem disso.
Cada leitor que se forma na infância é um milagre. Um sopro contra o embrutecimento. Um risco de sensibilidade em meio à pressa. E cada escritor que se dedica a esse leitor é um artesão da esperança.
Andersen vive. Vive no menino que hoje, em alguma escola pública, abre um livro com páginas amareladas e descobre que é possível transformar dor em história. Vive na menina que ouve uma leitura em voz alta e entende, sem entender, que existe um lugar onde ela pode ser inteira. Vive em mim, que escrevo não para ensinar, mas para oferecer abrigo.
Ser reconhecido como autor de literatura infantil é aceitar que se escreve para quando não se estiver mais aqui. É confiar que o livro seguirá falando — mesmo quando o mundo gritar. É ser parte de uma corrente antiga, silenciosa, firme, que começou muito antes de nós e seguirá muito depois.
Andersen foi, é, e será. E nós, que viemos depois, apenas tentamos, com a humildade que o ofício exige, continuar soprando a chama que ele acendeu.
Fabrício Correia é escritor, crítico de cinema, jornalista, historiador e professor universitário. Presidiu a Academia Joseense de Letras e integra a União Brasileira de Escritores – UBE e a Academia Brasileira de Cinema. É CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias, “Conversa de Bastidores” e o portal de entretenimento “Viva Noite”. Apresenta o programa “Vale Night” na TH+ SBT.