O SBT interrompeu a trajetória de Mauro Lissoni no comando da direção de Programação e Artístico da emissora, num movimento que expõe, mais uma vez, a fase de instabilidade enfrentada pelo canal na disputa por audiência e identidade de grade. A saída do executivo, oficializada nesta semana, ocorre após uma sequência de resultados abaixo do esperado no Ibope e em meio a um ambiente de desgaste interno que já vinha se tornando visível nos bastidores.
Braço de confiança da atual administração, Lissoni ocupava um posto estratégico dentro da emissora e havia retornado com a missão de redesenhar a programação, renovar formatos e reposicionar o SBT no mercado de televisão aberta. A promessa era de recuperação, fôlego novo e reorganização da casa. O que se viu, porém, foi uma sucessão de apostas que não entregaram o impacto desejado, aprofundando a percepção de que a emissora ainda procura um rumo estável para enfrentar a concorrência e reencontrar sua própria força popular.
Nos corredores do canal, a avaliação é que a pressão sobre o diretor cresceu à medida que programas lançados ou reformulados sob sua gestão não conseguiram transformar expectativa em desempenho. Algumas das atrações colocadas no ar tiveram vida curta ou não alcançaram a resposta esperada do público, contribuindo para um cenário de frustração interna. Em vez de uma virada, o SBT passou a conviver com sinais cada vez mais claros de fragilidade em sua grade, inclusive em horários historicamente sensíveis para a emissora.
A passagem de Lissoni também foi marcada por uma relação tensa com símbolos clássicos da identidade do canal. Sua resistência a conteúdos tradicionais e sua leitura sobre o reposicionamento da programação alimentaram debates dentro da empresa, sobretudo num momento em que parte do público ainda associa o SBT a uma televisão afetiva, popular e fortemente ancorada em marcas históricas. A oscilação de decisões sobre produtos conhecidos acabou reforçando a sensação de falta de direção numa emissora que, há anos, equilibra nostalgia, necessidade de renovação e pressão comercial.
A mudança tem ainda peso político. A saída de Lissoni ocorre dentro de um processo maior de rearranjo no núcleo de poder do SBT, com a volta de nomes antigos à órbita da emissora e a revalorização de figuras com forte trânsito interno. Trata-se menos de uma demissão isolada e mais de um capítulo de uma reorganização mais ampla, em que a empresa tenta recalibrar lideranças, reduzir ruídos e reconstruir uma lógica de comando capaz de devolver competitividade ao canal.
A nota oficial divulgada pela emissora adotou tom protocolar, agradecendo ao executivo pelo profissionalismo, pela dedicação e pelos projetos conduzidos durante sua permanência. Também reiterou que o SBT segue em processo de reestruturação, com foco em integração, fortalecimento de processos e evolução de suas operações. Na prática, o comunicado procura preservar a liturgia corporativa, mas não esconde o pano de fundo: a emissora vive um momento de cobrança intensa, em que resultados deixaram de ser promessa e voltaram a ser exigência imediata.
A trajetória de Mauro Lissoni no SBT, no entanto, não pode ser reduzida ao desfecho atual. Ele construiu uma longa relação com a emissora, onde começou ainda jovem e galgou posições ao longo das décadas, tornando-se um nome conhecido nos bastidores da televisão brasileira. Em outra etapa de sua carreira, ganhou visibilidade ao atuar em afiliada do grupo, onde acumulou experiência e consolidou reputação como executivo capaz de intervir em grade e operação. Seu retorno ao SBT carregava justamente esse simbolismo: o de alguém da casa chamado para ajudar a reorganizar uma marca em turbulência.
Mas televisão é, antes de tudo, um campo onde memória institucional nem sempre basta. O peso da história pode abrir a porta, mas é o desempenho diário que sustenta a permanência. No caso de Lissoni, a reconexão com o passado não foi suficiente para conter o desgaste provocado por decisões contestadas, resultados modestos e pela dificuldade do SBT em interromper sua espiral de perdas no Ibope.
A saída do executivo deixa claro que a emissora seguirá apostando em nova engenharia interna para tentar recuperar tração. Mais do que trocar um diretor, o SBT tenta dar ao mercado, ao público e aos próprios funcionários um sinal de reação. Resta saber se a mudança será apenas mais um movimento administrativo num tabuleiro em crise ou se marcará, de fato, o início de uma reconstrução mais profunda da emissora fundada por Silvio Santos.



