A moda brasileira perdeu neste domingo, 24 de maio, um de seus criadores mais sensíveis e autorais. Morreu, aos 74 anos, o estilista, figurinista, artista plástico e escultor Orlando Chiquetto. Nascido em 22 de agosto de 1951, Chiquetto construiu uma trajetória marcada pela elegância, pela ousadia estética e pela capacidade rara de transformar arte em emoção visível.
Sua morte encerra uma caminhada profundamente ligada à beleza — não à beleza superficial das vitrines, mas àquela que nasce do gesto criativo, da inquietação artística e da necessidade humana de imaginar mundos mais intensos.
Orlando nunca foi apenas um estilista. Era um homem de imagens. Um criador que compreendia o tecido como extensão da pintura e o corpo humano como espaço de manifestação artística. Em suas mãos, vestidos deixavam de ser roupas para se tornar narrativa, movimento e expressão plástica.
Suas coleções de alta costura chegaram a New York e Paris, incluindo apresentações recentes no tradicional Hotel Plaza Athénée, endereço histórico da sofisticação francesa. No Carrousel du Louvre, um dos espaços mais simbólicos da arte internacional, Orlando levou sua assinatura brasileira para além da moda, consolidando também seu nome nas artes plásticas.
As próprias telas inspiravam suas criações. Obras abstratas, intensas, muitas vezes próximas do action painting, serviam como origem para peças que pareciam carregar cor em estado emocional. Existia verdade em seu trabalho. Uma verdade artesanal. Sem fórmulas prontas. Sem artificialidade.
Em abril daquele ano emblemático, realizou o evento “Arte & Moda” durante a abertura da exposição da Academia Latino-Americana de Arte, presidida por Fábio Porchat, entre São Paulo e o Iate Clube de Santos. O encontro reuniu arte, alta costura e performance num mesmo espaço, reafirmando aquilo que Orlando defendia silenciosamente havia décadas: moda também é linguagem artística.
Revistas, programas de televisão e publicações culturais acompanharam sua trajetória. Obras como “Submersos I e II” e “Jardim com Morcegos” chamaram atenção de colecionadores no Brasil e no exterior. Sua pintura “Emoções” talvez sintetize aquilo que ele era: intensidade convertida em cor.
Mas nenhum currículo explica completamente um artista.
Quem conviveu com Orlando Chiquetto fala da delicadeza, da educação rara e da devoção absoluta ao ato de criar. Havia nele algo de artesão renascentista misturado à sensibilidade moderna da alta costura. Um homem capaz de desenhar silêncio em linhas elegantes.
A frase deixada por ele agora parece ainda mais dolorosa:
“Criar é dar forma ao invisível e deixar um legado para a vida.”
E foi exatamente isso que Orlando fez.
Seu legado permanece espalhado em coleções particulares, passarelas, exposições, fotografias, museus e na memória afetiva de quem viu suas criações de perto. Permanece também em cada artista brasileiro que insiste em produzir beleza num tempo cada vez mais veloz e descartável.
A arte brasileira amanheceu menor.
E Paris, New York, Santos e São Paulo talvez guardem hoje a sensação de que uma cor importante desapareceu do mundo.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e produtor cultural. Membro da União Brasileira de Escritores. Integra a Associação Paulista de Colunistas Sociais e faz parte da diretoria da FEBRACOS, Federação das Associações de Colunistas Sociais, presidida por Ovadia Saadia.



