Eugênia Fleury morreu hoje em São Paulo e a cidade se despede de uma de suas figuras mais emblemáticas no universo da moda: uma mulher que atravessou décadas com a serenidade de quem sabe que estilo não nasce de efeito, nasce de construção. Sua ausência não encerra apenas uma biografia; fecha um capítulo inteiro do refinamento paulistano, daquele que se reconhece pela discrição, pela disciplina e pelo senso de permanência.
Lituana de origem e paulistana por escolha e destino, Eugênia iniciou sua trajetória no centro simbólico do glamour brasileiro quando vestir ainda carregava liturgia: foi manequim de Dener. Ali, aprendeu o valor do rigor, do detalhe, do caimento perfeito como linguagem. A elegância, para ela, nunca foi adereço. Tornou-se método: precisão de corte, respeito ao tecido, postura, constância — uma ética do belo.
Esse entendimento sustentou uma das trajetórias mais consistentes do varejo de moda em São Paulo. Por cerca de quarenta anos, sua loja de prêt-à-porter no Shopping Iguatemi firmou-se como endereço de confiança para uma clientela exigente, fiel, habituada a reconhecer qualidade sem precisar de anúncio. As mulheres que a procuravam viam nela mais do que uma criadora. Encontravam uma referência. Eugênia defendia uma moda clássica, elegante e atemporal, com assinatura sóbria e inconfundível, feita para durar no corpo e continuar dizendo algo muitos anos depois.
Com o tempo, o mercado, as vitrines e os hábitos mudaram. Eugênia atravessou as transições sem perder identidade. Preservou o vínculo com seu público também por caminhos digitais, mantendo a mesma marca pessoal no atendimento e na curadoria: proximidade com distinção, cuidado com firmeza, gosto apurado sem ostentação.
Quem conviveu com ela conheceu a camada mais verdadeira do seu glamour: trabalho. Disciplina diária. Amor absoluto pela moda, exercido até os últimos dias, com seriedade de ofício. O brilho que ela carregava não vinha do acaso; vinha do bastidor, de uma vida dedicada a sustentar um padrão.
Uma cena ajuda a dimensionar sua presença. Na festa inaugural do Hotel Unique, em outubro de 2002, o desfile beneficente em favor da Laramara teve assinatura de Eugênia Fleury, e Hebe Camargo, sua grande amiga, foi convidada para conduzir a cerimônia. A noite, destinada a entrar para a memória social paulistana, guardou um instante de rara força: Hebe, de vestido azul, cantando “Como É Grande o Meu Amor Por Você” para Victor Siaulys (1935–2009), dono da casa, comovido diante de um palco-passarela que se tornaria um dos cenários emblemáticos dos grandes eventos do país. Ali, elegância virou acontecimento e isso sempre foi a especialidade de Eugênia.
Eugênia Fleury deixa uma marca singular na moda brasileira e no imaginário de São Paulo. Representou um tempo cosmopolita e exigente em que o estilo tinha densidade, e a sofisticação se reconhecia no silêncio, na precisão, na permanência. Sua história segue no guarda-roupa de muitas mulheres e na memória de quem entendeu, com ela, que elegância verdadeira não passa: se instala.
São Paulo, hoje, fica um pouco mais quieta. O nome Eugênia Fleury, porém, permanece como peça bem cortada: íntegro, raro, definitivo.



