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Quando o nome falha, a música insiste

Existe um tipo de memória que não pede licença para entrar. Ela atravessa o cansaço, contorna o esquecimento, e reaparece sem precisar do endereço completo. Em muitas pessoas com doença de Alzheimer e outras demências, essa memória tem melodia: um refrão antigo, uma canção de infância, o hino do time, a música do casamento, a cantiga que embalou um filho. Quando palavras se desorganizam e rostos se apagam, às vezes basta um compasso para que o corpo “saiba” antes da mente explicar.

Isso não é poesia contra a medicina. É neurociência com humanidade.

Por que a música “fica” quando tanta coisa vai?

A memória não mora em um único cômodo do cérebro. Ela é uma cidade de redes: bairros que se conectam por rotas elétricas e químicas. A música, por sua natureza, ativa muitas dessas rotas ao mesmo tempo — e aí está parte do segredo.

Quando ouvimos uma canção conhecida, não estamos apenas “escutando”. Estamos recrutando:

  • Áreas auditivas, que decodificam timbre, altura e ritmo.
  • Redes motoras, porque o cérebro tende a prever o pulso e preparar movimento (mesmo que seja só um bater de dedos).
  • Circuitos límbicos, ligados a emoção e recompensa — aquilo que dá cor afetiva ao que lembramos.
  • Redes autobiográficas, que costuram a música a lugares, pessoas e épocas.

Em demências, algumas redes se deterioram mais cedo do que outras. E há evidências de que certos circuitos envolvidos com memória musical e respostas ao ritmo podem se mostrar relativamente mais resilientes por mais tempo em parte dos pacientes. Digo “parte” porque demência não é um roteiro único: varia por pessoa, por tipo de doença, por estágio, por contexto emocional e ambiental. Ainda assim, a constatação clínica é frequente: a música consegue acessar caminhos alternativos quando a linguagem está bloqueada.

A música não “cura”, mas pode devolver presença

Como professor e terapeuta, eu não romantizo a doença. Também não vendo milagre: música não reverte neurodegeneração. O que ela pode fazer — e isso já é enorme — é modular o estado.

Em contextos de cuidado, intervenções musicais bem conduzidas podem:

  • reduzir agitação e ansiedade,
  • facilitar contato e comunicação,
  • organizar a atenção por alguns minutos,
  • estimular engajamento social,
  • evocar memórias autobiográficas (às vezes fragmentadas, às vezes surpreendentemente nítidas),
  • favorecer regulação emocional em pacientes e cuidadores.

E tem um detalhe precioso: em muitos casos, a pessoa não precisa “lembrar do nome” da música para que o corpo responda. A resposta pode vir como respiração que acalma, olhar que fixa, lágrima que não é tristeza pura, sorriso que é reconhecimento sem explicação.

O papel do ritmo: quando o cérebro se ancora no tempo

O ritmo é um organizador. Ele dá contorno ao agora. Para pessoas com confusão temporal, o pulso musical pode funcionar como um “corrimão” neurofisiológico: ajuda a sincronizar atenção, movimento e expectativa. É por isso que, mesmo em estágios avançados, vemos pés marcando o tempo, mãos acompanhando, pequenas vocalizações surgindo. A música oferece um mapa simples: começo, meio, retorno — e esse retorno, para quem vive perdendo coisas, é um tipo de segurança.

Vibroacústica: som que se sente, não só se ouve

Na minha prática e pesquisa, a vibroacústica amplia essa experiência. Ela utiliza vibração de baixa frequência associada à música (em equipamentos terapêuticos específicos) para atuar na regulação fisiológica e no conforto corporal.

Aqui, o foco não é “estimular lembrança a qualquer custo”, mas favorecer condições para que a pessoa esteja menos ameaçada por dentro: relaxamento, redução de tensão, melhora de percepção corporal, melhor qualidade de repouso em alguns casos. A evidência científica para vibroacústica vem crescendo, mas ainda pede mais estudos robustos e padronização de protocolos — por isso, meu cuidado é sempre o mesmo: indicação criteriosa, acompanhamento profissional, ajuste individual.

Em demência, o corpo frequentemente vira palco de desconfortos difíceis de verbalizar. Quando a linguagem falha, o sintoma pode aparecer como inquietação, irritabilidade, resistência ao cuidado. Trabalhar com som e vibração, com delicadeza e método, é também uma forma de escutar o que não é dito.

Como usar música com segurança e potência no cuidado

Há uma diferença entre “colocar uma playlist” e fazer uma intervenção significativa. Algumas diretrizes simples ajudam muito:

  1. Personalize: a música precisa ser da história da pessoa, não do gosto do cuidador.
  2. Observe o corpo: a resposta está na respiração, no olhar, na postura, não só no “eu gostei”.
  3. Prefira o conhecido: familiaridade costuma ser mais eficaz do que novidade.
  4. Cuidado com volume e excesso: estímulo demais pode aumentar confusão e agitação.
  5. Use a música como ponte: cantar junto, bater palmas, dançar sentado, lembrar um lugar — sem cobrar desempenho.
  6. Registre o que funciona: quais canções acalmam, quais ativam, quais entristecem; o repertório terapêutico é um diário vivo.

E, acima de tudo: a música não deve ser uma prova (“você lembra?”), mas um abrigo (“estou aqui com você”).

E sobre medicina regenerativa e “promessas” de restauração?

A pesquisa em neurociência e terapias biológicas avança, sim — e é importante acompanhar com seriedade. Mas, hoje, no cuidado cotidiano de demências, o que eu considero ético afirmar é: não há solução única, e intervenções com promessas grandiosas precisam ser filtradas por evidência, regulação e indicação médica responsável. Enquanto a ciência busca caminhos de proteção neural, o cuidado baseado em música oferece algo imediatamente concreto: qualidade de vida, vínculo, presença e dignidade.

Onde há música, ainda há identidade

A identidade não é só uma lista de fatos lembrados. Identidade é também gesto, preferência, emoção que reconhece. Às vezes, o nome do filho escapa — mas a canção que esse filho ouvia no carro acende uma luz antiga, e por alguns minutos o mundo volta a ter chão.

Eu escrevo isso como professor, pesquisador e terapeuta — mas também como alguém que acredita que ciência não precisa ser fria para ser rigorosa. A música não substitui cuidado médico. Ela não apaga a dureza do diagnóstico. Mas ela pode fazer algo raro: criar um “agora” habitável, em que o ser humano não seja reduzido à perda, e sim reconectado, mesmo que por instantes, ao que ainda permanece inteiro.

Se você cuida de alguém com demência, considere: talvez o caminho até essa pessoa não seja uma pergunta. Talvez seja um acorde.

Fabrício Correia é professor universitário, terapeuta integrativo na área de saúde; especialista em Musicoterapia e Vibroacústica.

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