Carlos Roberto Massa chega aos 70 anos ocupando uma posição que ultrapassa a biografia individual e se inscreve na própria estrutura da televisão brasileira, pois sua presença contínua ao longo de décadas coincide com um deslocamento profundo no eixo simbólico da mídia aberta, um movimento em que aquilo que antes era tratado como segmento específico passou a ocupar o centro da cena e a definir o tom dominante da programação.
Para compreender o que ele representa, é indispensável olhar para os que o antecederam e reconhecer que a televisão popular brasileira não nasceu pronta, mas foi sendo construída em camadas sucessivas. Abelardo Barbosa, o Abelardo Barbosa, introduziu a anarquia controlada como linguagem e demonstrou que o improviso podia ser método e não acidente; Flávio Cavalcanti elevou o julgamento moral ao horário nobre, transformando a opinião do apresentador em espetáculo e fazendo do estúdio uma arena onde valores eram expostos diante do público; Silvio Santos consolidou a conversa direta com o telespectador e estruturou uma televisão baseada na intimidade comercial e afetiva, aproximando o comunicador da plateia sem intermediários formais. Cada um deles, a seu modo, deslocou a televisão do pedestal institucional para um território mais poroso, onde a audiência deixava de ser massa silenciosa para se tornar parte ativa do jogo.
Ratinho surge como herdeiro desse percurso histórico, mas imprime uma inflexão decisiva ao assumir o popular não como estética pontual ou recurso episódico, mas como identidade permanente. Quando estreia nacionalmente no SBT em 1998, o país atravessava transformações sociais relevantes, com a interiorização do consumo, a ampliação do alcance das afiliadas e o fortalecimento de públicos que durante muito tempo estiveram distantes do centro produtor de cultura televisiva. Sua origem no interior do Paraná, sua experiência no rádio e sua passagem pela política local moldaram uma comunicação que não buscava tradução cultural para se legitimar, mas partia diretamente da linguagem cotidiana de seu público.
O programa que leva seu nome organiza conflitos familiares, denúncias públicas, debates morais, quadros humorísticos e música sertaneja em uma dramaturgia ao vivo que transforma o estúdio em espaço de confronto simbólico. A diferença estrutural não está apenas na pauta escolhida, mas na postura assumida pelo apresentador, que abandona a neutralidade tradicional e se posiciona de maneira enfática, opinativa e frequentemente emocional, estabelecendo com o espectador uma relação que não depende de formalidades nem de distanciamento institucional. O apresentador deixa de ser mediador e passa a ser parte ativa da cena, conduzindo o ritmo, interferindo nos relatos e assumindo responsabilidade narrativa pelo desfecho das situações exibidas.
Esse modelo altera o centro gravitacional da televisão aberta porque legitima sotaques, expressões e formas de indignação que antes apareciam de modo periférico, consolidando o popular como núcleo estruturante da programação. A televisão deixa de observar o cotidiano de fora e passa a encená-lo como matéria-prima principal, permitindo que parcelas amplas da população se reconheçam sem filtros excessivamente sofisticados. O resultado é a construção de uma base de fidelidade que não depende de modismos tecnológicos, mas da sensação contínua de pertencimento.
Com a ascensão da internet e a fragmentação da audiência, a televisão aberta passou a disputar atenção com plataformas digitais que aceleram o ciclo de exposição e julgamento público. A lógica das redes sociais intensifica o imediatismo, amplia a repercussão de cada declaração e transforma qualquer fala em potencial debate nacional. Ratinho, cuja linguagem sempre foi marcada pela reação instantânea e pelo confronto direto, encontra nesse ambiente um espelho ampliado do que já praticava em estúdio. A diferença é que agora o julgamento não se encerra no programa; prolonga-se nas redes, onde trechos são recortados, reinterpretados e redistribuídos em tempo real.
Sua resposta a esse cenário não consistiu em abandonar a identidade construída, mas em incorporar a repercussão digital como extensão do espetáculo televisivo, mantendo o programa como eixo central e utilizando a internet como espaço de eco e amplificação. Essa estratégia revela compreensão de que a televisão aberta, embora pressionada por novas tecnologias, ainda conserva força quando preserva coerência de linguagem e vínculo com seu público histórico.
Aos 70 anos, Ratinho representa a consolidação de uma etapa decisiva da mídia brasileira, na qual o popular deixou de ocupar a margem e passou a definir o centro, não como concessão ocasional, mas como fundamento permanente. Sua trajetória demonstra que a televisão aberta sobrevive menos pela reinvenção estética constante do que pela capacidade de sustentar um pacto simbólico duradouro com quem a assiste. O centro mudou de lugar quando passou a falar com a voz que antes era considerada periférica, e essa mudança, consolidada ao longo de décadas, ajuda a explicar por que Carlos Roberto Massa permanece como figura estrutural na história da comunicação brasileira.
Fabrício Correia é escritor e jornalista. CEO da Kocmoc New Future, responsável pelo portal “Viva Noite”. É apresentador e diretor de televisão, com passagens na Band, TV Brasil, TV Aparecida e SBT.



