Na noite de sua reestreia, o novo “Aqui Agora” foi exatamente o que se poderia esperar de uma emissora que, aos 44 anos, ainda cultiva o improviso como marca registrada e a memória popular como ativo emocional. O SBT voltou a apostar em seu passado para se reposicionar no presente. A nova versão do icônico telejornal policial, que fez história nos anos 90 com Gil Gomes, Ivo Mortante, Sérgio Ewerton e Cristina Rocha, tentou reviver aquele jornalismo cru, dramático e popular – sem, no entanto, encontrar um furo de reportagem que justificasse seu retorno como algo mais do que um revival nostálgico.
A promessa era de impacto: anunciaram uma “arma secreta” logo de início. Sob a fantasia de boxeador, eis que surge Geraldo Luís emulando, sem pudor, a teatralidade de outros tempos. Com ele, vieram Tony Castro e Fátima Souza, veteranos de um jornalismo que se fazia com microfone na mão e pé no barro. Mas não bastam nomes experientes: faltou-lhes o mais essencial ao gênero: uma grande história. Nada de matérias investigativas marcantes, nenhuma entrevista exclusiva, nenhum grito que ecoasse. Sem isso, o “Aqui Agora” se perde entre seus concorrentes: o já estabelecido “Cidade Alerta” da Record, o ruidoso “Brasil Urgente” da Band e o que se propõe combativo “Brasil do Povo” da RedeTV!.
Mesmo assim, o novo programa teve seus momentos. A homenagem ao lendário Gil Gomes, com direito a trecho de reportagem em cemitério e imitação espirituosa de Dani Brandi, não foi apenas um aceno ao passado, mas um reconhecimento de que ali, naquele tempo, o SBT ousava mais, mesmo na tragédia. Rita Cadillac, escolha insólita e por isso acertada, em sua participação como comentarista, trouxe à tona o tema da violência contra a mulher. E, num gesto que equilibrou representatividade e deboche. Com nanismo, a repórter Fofa Alves foi escalada para o quadro de notícias curtas, sob o bordão “Gigante da notícia”.
Pagetti e Brandi, os âncoras oficiais da bancada, cumpriram bem o papel de condutores, mas falharam naquilo que o público desse tipo de jornal mais deseja: opinião. O “Aqui Agora” sempre foi um programa de posições fortes, de vozes que não apenas informavam, mas julgavam. Agora, no afã de não ferir suscetibilidades, o jornal perdeu parte de sua contundência.
No Kantar Ibope, a estreia começou tímida, herdando apenas 1.6 ponto do seriado “Chaves” e ocupando o 4º lugar. Conseguiu subir aos 3 pontos e por um breve momento ultrapassar o “Brasil Urgente”, mas voltou a cair assim que o “Jornal da Band” entrou no ar. A audiência, como a proposta do programa, oscilou entre o desejo de reviver um passado de glória e a dura realidade de um presente televisivo saturado de sangue e sensacionalismo.
Há, sem dúvida, carisma e tentativa. Geraldo Luís é um bom nome para a prosposta e o elenco, competente. Mas a ausência de uma matéria verdadeiramente impactante tornou o episódio de estreia um espetáculo morno. Para um programa que carrega no nome o peso de uma marca histórica, apenas reviver fórmulas antigas não basta. O “Aqui Agora” original fazia o Brasil parar. Este, por ora, apenas tenta encontrar o tom.
Faltou, sobretudo, alma. Aquela alma popular e dolorida que Gil Gomes sabia narrar como ninguém. O SBT, ao completar 44 anos, precisa decidir se vai apenas soprar velinhas em cima de seu passado — ou se está pronto para escrever, com coragem, um novo capítulo na história do jornalismo popular. Porque saudade, por si só, não dá audiência. E piri e pororó