Fui ver Thiago Chagas no Teatro Colinas, em São José dos Campos. Tentei com minha produção que ele participasse de meu programa, mas não foi possível. Durante a semana, como um abraço, fiz um desenho dele com giz de cera, reforçando a luz de seus olhos claros, na transparência necessária para tratar do assunto; como respeitar o florescer de cada um compreendendo que o que nos torna iguais é sermos diferentes. Tomei um banho, 19h35, sábado, Jean Paul Gautier sem economia para impressionar um pouco mais, e uma mensagem no Instagram respondida de imediato; “Venha depois do espetáculo recebo todo mundo e nos conhecemos”. 20h19 ele entrou em cena. Antes, a participação doce e ácida da querida Fefe Houston, que esquentou a plateia com sua devoção a Whitney e mostrou que interação com o publico não faltaria. Em cena, o palco decidiu ser dele antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa. E quando começou, você entende: não se trata de uma performance, mas de um recomeço. Um acerto de contas com o tempo. Uma sessão de terapia sobre a vergonha enfiada goela abaixo nas tardes de domingo, no corredor da escola, na casa da avó onde o desejo era sempre um escândalo.
O espetáculo se chama “Xtraviado – Recalculando a Rota”, título direto, mas cheio de ruído. Não é sobre se perder. É sobre o que acontece quando a gente entende que o caminho desenhado pelos outros não serve. É também sobre reaprender a andar com as próprias pernas, sem manual, sem GPS, sem a voz do sistema dizendo “vire à esquerda”.
Impossível não lembrar de Paulo Gustavo. Há um parentesco invisível entre os dois. Não de estilo, mas de alma. Os dois compartilham o mesmo sopro cômico, a mesma inteligência de quem entendeu muito cedo que fazer os outros rirem era uma maneira de sobreviver. Trazem (e cito Paulo Gustavo no presente) a coragem de dizer em voz alta aquilo que sempre mandaram calar. Thiago não copia. Ele não precisa. É feito da mesma matéria, forjado no mesmo caldeirão cultural onde se ri para não chorar, aquele que a mãe é figura sagrada e terreno minado, e o afeto é o que sobra quando todas as outras portas se fecham.
Ver Thiago em cena é, de certa forma, matar a saudade de Paulo. Lembramos da falta que ele faz e, ao mesmo tempo, percebemos que sua presença continua reverberando em artistas que, como ele, fazem da vulnerabilidade uma força. Há algo em “Xtraviado” que resgata esse tipo de humor que é generoso, mas implacável.
Thiago não está interessado em lacrar. Seu texto não é panfleto nem manifesto LGBTQIAPN+, ao contrário critica essa urgência de tentarmos classificar o outro. É lembrança e gesto, um documento vivo de alguém que ainda está tentando entender como seguir em frente sem apagar quem sempre foi. Ele fala da infância, da fé, da escola, da voz que pediram pra engrossar. E fala rindo.
A estrutura do espetáculo é limpa. Não há floreio. A palavra é o centro. Ele conta, hesita, retoma, joga uma piada, recua. E nesse movimento tão humano, constrói um lugar onde o público se vê. Cada um, à sua maneira, se reconhece naquele menino que aprendeu a se esconder antes de saber quem era.
Não há final glorioso, óbvio que no meio do espetáculo ele leva ao palco Dona Fernandona, que ampliou sua projeção e permitiu a ele uma certa carga dramática adicional, afinal por mais engraçado que seja estamos falando da atriz que representou Shakespeare na Arca de Noé, uma piada minha, espero que entendam. Há um artista, inteiro, dizendo: é isso que sou, com o que me deram e com o que precisei arrancar. O espetáculo termina e a sensação é a de que se ouviu uma história urgente, dita no tempo certo, com as palavras que precisavam ser ditas. E por isso mesmo, tão rara.
“Xtraviado” para mim foi um presente. (Quis esticar, mas nem tudo dá certo o tempo todo). E por isso, Thiago, obrigado. Por nos lembrar de Paulo. Por ser você, rir daquilo que nos engasga. E por nos oferecer, com tanta dignidade, o caminho de volta pra casa. Mesmo que a gente tenha que recalcular a rota pra chegar lá.