A praia virou território de rito coletivo. Antes mesmo do primeiro acorde, já se intuía a dimensão do encontro: uma artista no auge do domínio de si diante de uma massa que não veio apenas assistir — veio se reconhecer.
Depois de levar a turnê Las Mujeres Ya No Lloran a diferentes palcos, Shakira chegou ao Rio com um espetáculo recalibrado para a escala monumental de Copacabana. O repertório manteve a espinha dorsal conhecida, mas ganhou ajustes de ritmo e impacto. O público respondeu com entrega imediata.
A abertura com “La Fuerte” funcionou como declaração de intenções: pulsação eletrônica, corpo em movimento e comando absoluto da cena. Em seguida, “Girl Like Me” e “Las de la Intuición” sustentaram o eixo da noite — a afirmação feminina, com ênfase na identidade latina que sempre atravessou sua trajetória. “Estoy Aquí” apareceu breve, quase um aceno à memória afetiva de quem acompanha desde o início.
Entre uma sequência e outra, Shakira deixou escapar algo mais íntimo. Recordou a chegada ao Brasil ainda jovem e reconheceu, com emoção evidente, o caminho percorrido até aquele palco aberto, tomado por gente. Quando “Acróstico” entrou, com imagens dos filhos projetadas nos telões, o espetáculo desacelerou. Por alguns minutos, a grandiosidade cedeu espaço ao afeto.
O clima voltou a ferver no bloco latino com “La Bicicleta”, “La Tortura” e “Copa Vacía”. Hits que poderiam sustentar apresentações inteiras, comprimidos ali em favor de um desenho mais amplo. Em “Hips Don’t Lie”, não restou dúvida: o corpo segue sendo instrumento central — não como ornamento, mas como linguagem.
A cantora também abriu espaço para faixas menos previsíveis, como “Loca” e “Can’t Remember to Forget You”, agradando quem buscava surpresas além do óbvio.
Num dos momentos mais diretos da noite, dedicou “Soltera” às mães que criam sozinhas — uma fala simples, sem retórica, que encontrou eco imediato. Logo depois, chamou Anitta ao palco. O encontro, enfim concretizado ao vivo, carregou clima de celebração entre pares.
A memória dos anos 90 entrou em cena com “Pies Descalzos, Sueños Blancos” e “Antología”, em versão mais enxuta, quase acústica. Houve um pequeno desencontro com o público, que demorou a entrar — raro instante em que o fluxo perdeu temperatura.
As participações brasileiras deram outro peso simbólico à noite. Maria Bethânia trouxe densidade ao dividir “O Que É, O Que É?”, enquanto Caetano Veloso surgiu em um momento delicado com “Leãozinho”, faixa que Shakira associa à própria vida doméstica. Ivete Sangalo, como de costume, transformou poucos minutos em festa plena ao puxar “País Tropical”.
Sem depender de cenografia grandiosa, o show se sustentou na presença física da artista. A reta final recuperou o pulso com “Whenever, Wherever” e “Waka Waka”, antes da imagem da loba dominar o palco e conduzir o encerramento com “She Wolf” e “Bzrp Music Sessions”.
Depois de mais de duas horas, o que permaneceu não foi apenas a dimensão do público ou a sequência de sucessos. Foi a constatação de uma artista que compreende o próprio lugar — e o ocupa sem hesitação.
Naquela noite, Copacabana não foi só cenário. Funcionou como altar aberto. E, no centro dele, Shakira conduziu sua alcateia como quem conhece, de fato, a força do próprio chamado.



