Foto: Até a ilustração não é o que parece ser. Não é Ghibli é ChatGPT

ZÉCORDIALMENTE, SUA MAJESTADE

(Ou como um homem de Águas da Prata tentou ser a Rainha Elizabeth III usando um RG falsificado e um sonho de purpurina)

 

Era uma vez um Zé.

Não qualquer Zé. Não o Zé da oficina. Não o Zé da coxinha com caldo de cana. Mas um Zé com ambição. Um Zé “Maria Fátima” para colocar na trilha sonora “Brasil” interpretado por Gal Costa e fazer propaganda do remake da rainha das novelas brasileiras “Vale Tudo”.

Porque no Brasil, sejamos francos, Zé é quase um sistema de governo. Um nome constitucional, distribuído gratuitamente no berçário junto com a vacina BCG. Um nome que, quando falado na fila do SUS, faz “treze” pessoas virarem a cabeça. Um nome difícil de entrar no corpo diplomático da ONU, mas conhecido no jogo do bicho.

E foi por isso que ele — José Eduardo Franco dos Reis, CPF final 039-27, nascido em Águas da Prata e criado com pão francês e margarina — decidiu que era hora de mudar.

Mas não mudar de roupa. Nem de bairro. Nem de aplicativo de paquera.

Ele decidiu mudar de alma por meio do cartório.

E assim, ao invés de José, ele passou a se apresentar como:

Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield.

Uma linha sucessória, um testamento em vida, um desfile inteiro da Vai-Vai com backing vocal de coral anglicano. Um nome tão grande que precisa de duas páginas na identidade e um estagiário da Receita Federal só para digitar no sistema.

Vamos aos fatos: o que leva um homem brasileiro, morador de cidade pequena, com RG assinado à caneta Bic e histórico de compra no carnê, a olhar no espelho e dizer:

“Não sou Zé. Sou Sir Edward.”

A resposta pode estar em Shakespeare. Ou em alguma rave mística. Ou, quem sabe, numa sessão de terapia interrompida por falta de PIX.

Zé, como tantos brasileiros, cansou de ser figurante da própria vida. E, num surto de nobreza performática, decidiu transformar seu nome numa mansão inglesa. Cada sobrenome, uma sala. Cada vogal, uma janela gótica. Cada consoante, um tapete persa de ego.

Edward — o nome que já nasce com Escócia no sangue e boletim escolar em Hogwarts.

Albert — porque até a monarquia precisa de um meio-termo entre o glamour e o purê de batata.

Lancelot — o amante da rainha. Aqui a libido entra. O cavaleiro que serve à pátria e à pélvis com igual paixão.

Dodd — parece que não significa nada, mas é exatamente por isso que soa importante. É o “da Cunha” britânico.

Canterbury — berço da fé anglicana, do chá das cinco e do tédio meticulosamente planejado.

Caterham — nome de carro de corrida, porque ninguém é 100% original.

Wickfield — a cereja final. Nome de mordomo que cita Oscar Wilde enquanto passa o espanador nas lágrimas da nobreza.

O problema — sempre há um — é que o Brasil é um país de nomes simples e dedos muito sinceros. Porque a biometria não perdoa. E o polegar de José Eduardo, ao encostar na máquina, gritou:

“Esse aqui é o Zé!”

E foi assim que o castelo de letras, construído com tanta purpurina emocional, desmoronou com a frieza de um scanner.

No tribunal, o juiz, entre indignado e estupefato, perguntou se aquilo era deboche ou dramaturgia. E Zé, perdão, Sir Edward, disse:

— É performance, meritíssimo. É psicologia com plumas.

E citou Aurélio Lyra Tavares, o general da Junta Militar que, vejam só, escrevia poemas com pseudônimo e assinava como se fosse uma Sylvia Plath com farda.

Zé não falsificou — Zé criou um heterônimo. Como Fernando Pessoa, só que sem Lisboa e sem editor. Um auto-heterônimo heróico. Uma criação de si mesmo com manual de nobreza e trilha sonora da Celine Dion.

E tem mais. Zé é filho da estética que também sequestrou comercialmente Fábio Jr. dos anos 70. Da época em que o cantor subia no palco do Chacrinha se dizendo Mark Davis e cantava “Stupid Cupid” com olhar de quem fingia não falar português. É a síndrome nacional do “sou brasileiro, mas o importado é melhor.”

Zé, com seu nome quilométrico, é parente estético da drag queen da Vila Formosa chamada Lady Stephanie Von Crystal de Versailles Flor de Lis da Silva. Ambas têm o mesmo desejo: ser alguém além do que o cartório permitiu.

A verdade é que no Brasil ninguém quer ser só um nome. Queremos ser um evento. Um bloco carnavalesco. Um sobrenome com playlist própria.

E se alguém acha exagero, é porque nunca tentou ser chamado por um nome com sete sobrenomes num consultório odontológico.

— Edward Albert… o resto não coube na ficha, senhor. O do senhor é o canal?

Sim. Ele é o canal. O do Youtube. O da monarquia líquida. O da revolta nominal.

Zé deve ser condenado, é verdade.  Mas não deveria, torço para que saia da audiência com dignidade. Com a cabeça erguida e o espírito ainda trajado de paletó de tweed e bengala simbólica.

E se condenado, como todo bom aristocrata da corte que já integrou deve recorrer. Não da pena — do próprio passado.

E que, embora a justiça o obrigue a ser José Eduardo Franco dos Reis, no coração ainda se reconhece como Sir Edward of the Hidden Nobility of the Serra da Mantiqueira.

E por fim, deixo aqui uma reflexão:

No país onde todo mundo quer ser outra coisa, quem ousa mudar o próprio nome é louco ou visionário?

Talvez seja os dois. Talvez seja apenas Zé.

Ou, como ele mesmo assina agora no grupo da família:

“Zécordialmente, Sua Majestade.”

Luís Phytthon

(Baronesa da ironia, drag da imprensa, comentarista da vida com lantejoulas e escárnio.)

 

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